quarta-feira, julho 23, 2008

Odores em grãos de areia

Ainda a noite não se despediu do dia e já o ar quente começa a tomar o lugar da aragem húmida que me fez cobrir com a manta multicolor com que me abrigo.
Dentro da tenda o dia toma tons pardos enquanto o ar ainda é respirável, tingido pelo odor seco do pão quente acabado de cozer na chapa que vou tragando em pedaços dobrados pelos dedos calejados empoeirados pelo tempo e pelo pó que tudo cobre numa presença incontornável.
As últimas cabras a serem ordenhadas espalham alguns balidos numa saudação ao novo dia, a que me associo ao ritmo de pequenos goles com que sorvo o leite matinal ainda morno da ordenha.

Chega a hora de levar o rebanho a pastar, numa rotina diária já conhecida, num passeio pelos caminhos adivinhados num terreno de areia polvilhada por pequenas pedras de arenito da mesma cor castanho-claro, quais pepitas de um valor que a abundância e o incómodo de caminhar sobre elas faz desdenhar.
Os escassos arbustos emitem um ruído semelhante ao crepitar do óleo quente, quando sujeitos à persistência do mastigar das cabras, que indiferentes às arestas afiadas das folhas quase secas, as devoram resignadas á imposição do apetite.

Uma caravana de camelos surge no horizonte quase invisível pela cumplicidade das cores com o tom doirado das dunas, denunciada pela fila de sombras ondulantes, vacilando ao ritmo paciente dos passos que tomam cadência em baques que ganham um crescente volume surdo à medida que se aproximam.
“Salam aleikoum” saúdam os homens num gesto de cortesia, cadenciado pela mão direita que deslocam entre o peito, a boca e a testa enquanto a mão esquerda segura a montada pelas rédeas de um mesmo couro com que foram feitas as sandálias que lhes calçam os pés. Estão cobertos de panos de um azul forte, contrastando com a alvura branca do pano que lhes cobre a cabeça, deixando uma pequena abertura para os olhos negros cor de azeviche, por onde se anunciam os rostos crestados por um sol que lhes impôs na pele o mesmo tom castanho das tâmaras, que lhes servem de alimento.
O calor emanado pelos bafos da cáfila de camelos mistura-se com o ar quente e seco que tudo envolve e nos entra no peito como se nos aconchegasse interiormente, qual mão invisível, aquecida nas mesmas brasas onde uma pequena chaleira emite o som doce do murmurejar da água onde deito um pequeno ramo seco de chá de menta, a servir em gestos simples de um respeito mudo, sobre o açúcar que o espera impaciente em pequenos copos de vidro canelado onde a areia e os anos deixaram marcas baças no polir das arestas.
A conversa é calma e em voz amena, quase cerimonial, num idioma de frases de tonalidade quase tão seca como o ar que entra pelas gargantas, que o chá quente ilude em sensações de frescura pelo sabor mentolado da infusão. Esta é bebida a pequenos goles delicados em gestos repetidos com o auxílio das mãos que a conduzem à boca pelos dedos indicadores e polegares já habituados ao vidro quente que as palmas das mãos procuram proteger dos grãos de areia embalados em suspiros furtivos da aragem.
As discussões e os assuntos são tema de numa precursão melodiosa de um gargarejar ritmado, apenas entrecortado pelo borbulhar fino da chicha onde o tabaco misturado de ervas, arde sob as ordens de uma pequena brasa retirada à lareira com a ajuda de dois pequenos ramos, desempenhando de improviso o papel de tenaz nas mãos experientes de um berbere de rosto afilado e expressão severa.

Antes que a noite desça de novo, inclino-me sobre a esteira no alpendre da tenda e demoro o olhar sobre a paisagem que vai tomando tons de âmbar enquanto o céu muda para um tom anilado que a lua quando nascer vai contrariar em reflexos de esmeralda.

Fecho os olhos e aspiro confortado a novidade da frescura da noite enquanto penso que não era capaz de viver noutro lugar, sem que deste sentisse uma castigadora saudade.

3 comentários:

catxinha disse...

Muito bonito.
Há tanto tempo que não ouvia esta música... Traz-me recordações.

Um beijo*

O Profeta disse...

O fantático mora em tua alma...


Abraço

Sha disse...

Há odores que nos estão tão impregnados na alma, que não sabemos se nos perseguem ou se os perseguimos... mas que temos a certeza que nos guiam.