Pai, no dia ...
- Pai toma é para ti.
O passo era apressado e as mãos pequeninas traziam dois embrulhos, num cuidado que justificava toda a pressa do mundo. Aqueles pequeninos olhos castanhos ganhavam agora o tamanho da lua e o sorriso que os acompanhava era bálsamo para todas as maleitas do corpo e da alma que assim se juntavam na árdua tarefa de descobrir o que naquelas prendas se adivinhava. - Ena pá, duas prendas, que bom.
- Sim pai, esta fui eu que fiz na escola e esta fui eu que comprei.
As mãos do pai aplicaram-se no retirar a fita-cola e no abrir o papel de embrulho dobrado com cuidado, enquanto a face do filho denunciava um crescente de inquietação e ansiedade.
- Rasga o papel, pai.
Era a ordem suprema de quem não suporta a espera da surpresa a causar no remate do evento.
- Olha que giro, um coelhinho da Páscoa e está mesmo bem feito.
- Abre a outra também, pai.
A tarefa de abrir o embrulho repete-se, assim como a ansiedade do filho, que não tarda na exigência da pressa de rasgar o papel que divide a surpresa do espanto de a conhecer.
- Olha que bonito baralho de cartas, e tem nas costas o dizer “Pai tu és o meu herói”.
- Sim pai e agora podemos jogar os dois com elas.
- Sim podemos, hoje e sempre.
O momento ia-se consumindo nos dois sorrisos cúmplices que abraços e beijos selavam em segundos de oiro que elevavam quaisquer prendas à condição das mais belas jóias, das que nenhum ourives seria capaz de reproduzir que não fosse somente na condição de Pai.
- E tu pai, que prenda deste ao teu ?
Primeiro fez-se silêncio, depois as palavras foram substituídas por um abraço apertado e um beijo sentido, agora que a alma os emprestava no tempo e no espaço.