quarta-feira, maio 21, 2008

Porque é que a galinha atravessa a rua…


Quase toda a gente conhece a anedota acerca do motivo pelo qual uma galinha atravessa a rua, acabando-se surpreendentemente por justificar apenas com o desejo de a galinha querer passar para o outro lado.

É conhecida a habilidade de muitas personalidades para o aproveitamento de situações que por si só, muitas vezes pouco significado têm, mas que acabam por servir de motes de afirmações a gosto e uso pessoal, quase sempre duvidoso.

Imaginemos nessa situação os comentários de algumas personagens conhecidas:

José Sócrates: O facto das galinhas poderem atravessar a rua, foi mais um dos objectivos alcançados por este governo, que nisso se empenhou arduamente com a colocação de passadeiras em todas as ruas.

Correia de Campos: A galinha atravessou a rua para ir pôr o ovo numa maternidade em Badajoz após termos fechado a maternidade local, de acordo com o plano nacional de saúde.

Cavaco Silva: O Estado português deve ter sempre em conta a necessidade de todas as galinhas em atravessar a rua, facto a que o presidente da república deve estar sempre atento.

Mário Soares: O facto de uma galinha atravessar a rua, mostra bem a importância de qualquer estado democrático no processo da economia da sociedade. Eu sempre fui a favor das galinhas. Estive até para fazer uma presidência aberta na capoeira lá de casa.

Durão Barroso: Com o novo enquadramento europeu, eu diria até que, qualquer galinha europeia deverá poder atravessar todas as estradas no Parlamento Europeu.

Santana Lopes: Desde sempre que o PPD/PSD se bate pelas galinhas e pelo direito a atravessar a rua. Já Sá Carneiro acreditava um dia poderem vir a voar.

Alberto João Jardim: Essa coisa de as galinhas atravessarem a rua é mais uma forma desses senhores do continente desconsiderarem as galinhas da Madeira, que com o infame corte orçamental dos políticos de Lisboa, tiveram de cortar as pontas das penas para não cairem ao mar.

Manuel Alegre: Pergunto ao vento que passa, notícias da minha galinha e o vento cala a desgraça e é grande pena a minha, porque a mim ninguém me cala e a minha galinha será sempre livre de atravessar a rua.

Francisco Louçã: Este governo tem estado a oprimir as galinhas, que cada vez mais se vêm obrigadas a atravessar a rua, num protesto claro contra as medidas governamentais.

Miguel Portas: A evolução da sociedade, mostra que cada vez mais galinhas atravessam a rua, face à exigência de um mercado que lhes exige mais das penas.

Paulo Portas: Há muito tempo que o CDS/PP tem vindo a alertar para o facto das galinhas atravessarem a rua e disso tem feito mote da sua intervenção pública e no parlamento, com carácter de urgência. Eu gosto mesmo é de galos.

Luis Filipe Menezes: Eu espero que a galinha não tenha atravessado a rua para se candidatar à liderança do PSD.

Manuela Ferreira Leite: Já era tempo de uma galinha atravessar a rua para pôr o partido na ordem.

Marcelo Rebelo de Sousa: A galinha que atravessa a rua, merece à partida uma nota 10, aliás, recomendo vivamente um livro que agora saiu e que se chama " como pôr a galinha a atravessar a rua".

Jerónimo de Sousa: Uma galinha atravessar a rua, retrata bem como a sociedade capitalista explora os galináceos durante as 40 horas semanais, pelas quais nos temos batido numa luta constante e activa.

Odete Santos: A galinha mostra a importância do poder galináceo, quando atravessa a rua num esforço que a sociedade capitalista explora e que o governo não tem dado importância.

Álvaro Cunhal: A galinha atravessou a rua ?! Olhe que não!

Cardeal José Policarpo: A galinha atravessa a estrada com fé e devoção, para se entregar na cristandade do sacrifício, morrendo sem o pecado original.

Sigmund Freud: O acto da galinha atravessar a rua, mostra bem como isso reflecte a sexualidade da galinha face ao subconsciente.

Albert Einstein: Se a galinha atravessasse a rua a uma velocidade próxima da luz, a energia das penas seria igual à sua massa a multiplicar pelo quadrado da velocidade. O problema é os ovos sairem cozidos.

Galileu Galilei: Não é a galinha que atravessa a rua, mas a rua que se deixa atravessar pela galinha, mas não digam nada à Santa Inquisição senão quem se frita sou eu.

Isaac Newton: Se a galinha atravessar a rua e não voar, é porque está sujeita à mesma força da gravidade que faz o ovo cair no chão.

Charles Darwin: Desde a época dos dinossauros que as galinhas têm vindo a evoluir para atravessarem a rua.

Papa Bento XVI: A galinha quando atravessa a rua é abençoada quando acaba por ser comida pelos sacerdotes.

Ayatollah Khomeini: Todas as galinhas devem atravessar a rua de burka vestida para fazer a guerra santa contra os infiéis.

George Bush: Os EUA estarão sempre atentos a cada galinha que atravesse a rua e não tolerarão nenhuma actividade terrorista, mesmo que seja colocar um qualquer ovo que possa ameçar a segurança nacional.

Rainha Isabel II: A galinha que atravessa a rua, representa a real tradição britânica para ir tomar o chá das cinco.

Príncipe Carlos: Quando a galinha atravessar a rua, ou é a fugir da Camila ou vai jogar pólo como um dos meus filhos.

Margaret Thatcher: Não permitirei que as galinhas atravessem a rua para se juntarem à luta dos mineiros.

José Eduardo dos Santos: Os galinha pagou nos generale para atravissar nos strada´para eu ter os comissão para comprar os quinta nos Europa.

Sílvio Berlusconi: Assim que a galinha pagar à máfia, vai ter toda a protecção para atravessar qualquer estrada da Itália.

Bill Clinton: Quando uma galinha atravessa a rua é porque quer ir à sala oval da Casa Branca para ser assistente.

Osama Bin Laden: Todas as galinhas hão-de atravessar a rua para irem embater nas capoeiras dos americanos.

Pinto da Costa: Eu já disse que num teinho nada a ber cum essa galinha que atrabessou a rua na qual eu nunca estibe.

Major Valentim Loureiro: Não tenho conhecimento de nenhuma galinha a atravessar a rua e até um juiz desambargador me garantiu que isso não acontecia.

Carolina Salgado: É verdade sim, que várias vezes, uma galinha atravessava a rua para ir almoçar com o Sr. Pinto da Costa e com o Major Valentim Loureiro.

Dias da Cunha: A culpa é do sistema pelo facto da galinha ter atravessado a rua.

Luis Filipe Vieira: Eu tenho a certeza de que muitas galinhas ainda vão atravessar a rua para aderirem à campanha dos 300.000 sócios do Benfica.

Vale e Azevedo: Eu paguei do meu bolso e ainda espero que o Benfica me pague pela rua que a galinha atravessou.

José Mourinho: A galinha está em condições de aceitar o desafio e assim poder atravessar a rua. Eu mesmo também bati a asa e voei.

Cristiano Ronaldo: Qual galinha ? Quanto cobra ela para atravessar a rua ? Até podem vir 3 ou 4 e fazemos a festa da bicada em minha casa.

Luíz Felipe Scolari: Eu confio plenamente nas minha galinhas e se a galinha atravessou a rua, ôba, então é porque foi convocada, ora.

Carlos Cruz: Galinha ? A atravessar a rua ? Onde ? Não pode ser franga ou franganote ? Hummmm...

Herman José: Oi, uma galinha a atravessar a rua ? Será na marina de Vilamoura a caminho do meu barco ? És tão boa …

José Castelo Branco: Aiii, uma galinha a atravessar a rua! Que horror, ainda por cima poedeira! Que ar pindérico a bicha não ter uma pena sequer da Gucci. Será que também põe ovo? Hummmm….eu também queria pôr ovo, mas Chanel.

Maya: Com o Sol em Capricórnio e a Lua em Marte, prevejo que a galinha atravesse a rua no signo de Virgem, o que deve dar uma valente dor quando for pôr o ovo.

Jorge Palma: A galinha encostou-se a mim para atravessar a rua para irmos para o outro lado dar umas passas.

Nuno Eiró: Ai, uma galinha a atravessar a rua ? Ai eu adoro galinhas e galos. Olha a minha crista. Ai quem me alisa as penas, se eu atravessar também ?

Daniel Nascimento: A galinha atravessou a rua ? Ai, foi para receber um globo de ouro concerteza. Quem me dera ser galinha preta também.

Cláudio Ramos: Ai eu sei de certeza que a galinha atravessou a rua para fazer uma bicheza qualquer. Eu mesmo gosto de bichezas.

Elsa Raposo: Hummm…se a galinha atravessou a rua foi pelo galo da vizinha de certeza. Adoro capoeiras.

Lili Caneças: Acho muito bem que a galinha atravesse a rua, principalmente para fazer um peeling e ficar com as penas no ar, como eu.

Artur Albarran: Uma tragédia, um horror … a galinha atravessou a rua e as câmaras não estavam lá.

Baptista-Bastos: Eu pergunto-me onde estava a galinha no 25 de Abril quando ia a atravessar a rua ?

D. Duarte Pio: Eu e a minha Isabelinha temos um grande apreço pelas galinhas que atravessam a rua pela causa monárquica para ir brincar com o Afonsinho.

Belmiro de Azevedo: É evidente que a galinha atravessou a rua para ir a mais uma promoção dos nossos supermercados.

Manuela Moura Guedes: Foram cardos, foram rosas que fizeram a galinha atravessar a rua para encher a cloaca de botox para ficar como eu.

sexta-feira, maio 16, 2008

Pai... (16-5-1921 ... 11-12-2004)


A vida desenrola-se na aventura constante do desconhecido e os agrestes pinhais minhotos cedo dão lugar ao deslumbrar citadino dos prédios e avenidas da capital, no abrigo fraterno que a ocasião deu a conhecer.

Carros e motores traçam desígnios de labor, que o destino atraiçoou também, na perda de quem mais quis, mudando o compasso de um fado que se foi tocando baixinho entre copos de vinho e jogos de dominó.

No descanso resignado do tempo sem fim, uma voz inesperada rompe o silêncio que a vida contrariou mais uma vez, aumentando o fardo das obrigações, a que foi poupado no possível, pela recompensa das preocupações que se fizeram parcas.

O definhar fê-lo acontecer, no suporte dos malditos, qual expiação indesejada onde mão teve a morte que uma paz sofrida aceitou contrariada.

Fez-se assim, sepultura de um e de mais, que juntos lhes seria justo a partilha da sina.

Repouse então, lá no céu eternamente, na paz profunda que ora lhe deseja quem na falta o viu constante, numa casa que ora ficou vazia.

quarta-feira, maio 14, 2008

Pétalas de rosa


O acaso e a vontade juntaram-se à revelia na oportunidade, trocando-lhe as voltas nas tarefas que tinha pensado realizar naquele dia e assim, acabou por converter o desejo no mando que lhe iria traçar o caminho a percorrer.

Apressou o passo, buscando no fim do dia, o tempo necessário de chegar antes que se fechassem as portas da pastelaria que com o hábito se tornara num pequeno éden onde o chá preenchia o espaço convexo das chávenas, enquanto fatias do bolo de chocolate apaladavam conversas entre olhares nos encontros de fim de dia.

Com a mesma pressa entrou e saiu, já com o bolo de aniversário na mão, arrebatando um dos exemplares que davam fama à excelência da casa que os fazia desde que se lembrava, ainda na inocência da sua meninice, quando lá ia pela mão da sua Mãe.

O caminho fez-se agora próximo, directo à florista quase alí ao lado, na escolha das rosas que iria fazer oferecer, a que a sua própria saudade, em vão emprestava um vermelho rubro de sangue, tão vivo como a memória dos aniversários que iguais já celebrara antes, agora inscritos na emoção de os reviver, fazendo viver os outros.

Saiu correndo, tão depressa como a brisa faz desfraldar as velas de vontade e fez-se ao caminho, para que o destino final conhecesse a homenagem que uma Mãe que não a sua, iria receber daqueles que o coração guarda tatuados, numa alma acostumada a dar aos outros o que a vida lhe negara a miúde.

O bolo de aniversário cumpria a função, com a cumplicidade do aroma das rosas que pequenos borrifos de água e a pressa do caminho fizeram conservar na frescura da intenção da oferta e que agora repousavam numa jarra diante da janela, cujo parapeito parecia um pequeno altar aos que à distância, o pensamento aproximou.

Os dias passam-lhe ao sabor de um sorriso ligeiro, com que ia regando as rosas, que se iam abrindo num espreguiçar tingido pelos raios de sol que atravessavam a vidraça entreaberta, por onde sorrateira uma aragem leve entrara, tomando de caminho um rosário de pétalas, espalhando-as pelo chão, como se uma mão invisível traísse o acaso, para com elas formar as letras de um nome que ausente, lhe era familiar no aroma que continuava no ar, igual ao de um beijo de Mãe.

segunda-feira, maio 12, 2008

Diálogo com o silêncio …


Sentaram-se os dois à mesa do café, ele com um olhar sereno e um sorriso quase dissimulado, enquanto diante dele, ela assumia um olhar inquieto com as mãos finas sobre a mesa que se interpondo entre os dois, os apartava condescendente aos olhares que sobre ela se encontravam.

- Li o que escreveste e sinceramente não sei o que te dizer. Senti-me esmagada com as palavras. Ao ler aquele texto quase se consegue imaginar tudo o que se passou. Entendo que mais do que amor enorme, tinhas uma admiração profunda por ela, por tudo quanto ela passou durante toda a vida, que poucos poderão imaginar.

- Agora tudo faz parte dum passado, porque ainda ainda o transportas contigo, numa caminhada solitária ? Sei que foste perdendo todos os que te rodeavam, mas não estás só. Tens à tua volta pessoas que gostam de ti e sabes que gostam. Tens um coração enorme onde elas estão e de quem gostas profundamente.

- Quando é que vais conseguir libertar desse sofrimento que transportaste dos outros para ti mesmo ? Quando acabará essa herança que carregas só ?

Ele observava-a com os olhos, que algumas lágrimas dissimuladas a custo, conseguiam polir num brilho ondulado, ao sabor do mesmo sorriso com que chegou.
Saía-lhe pela boca o mesmo silêncio que ouvira tantas vezes na memória, como resposta às mesmas perguntas a que nem a alma nem o tempo haviam sabido ainda responder, num diálogo calado com a sorte.

domingo, maio 04, 2008

Dia de uma Mãe ... sem Ela


Nasceu no dia de Natal que lhe traçou o nome, não numa mangedoura, nem no conforto da palha, mas numa casa pobre e conheceu o desconforto e a escassez de meios que vitimaram cinco dos seus oito irmãos.

Marcou-a o destino com a pouca visão que aos sete anos lhe impôs o uso de óculos e a crença da época desaconselhou a instrução durante a segunda classe do ensino primário, que assim ficou incompleta, amputando o sonho de vir a ser professora da língua que tanto gostava e a reconhecida inteligência reclamaria para sempre, no desejo e no desgosto.

Gabavam-lhe a voz, que ainda jovem, emprestava ao fado que cantava, com a melancolia daquele que era também o seu, a que o pudor da época remeteu apenas para o canto caseiro, na companhia de um pai que no desgosto acalmado pelo álcool imitava o toque da guitarra com um velho abano enquanto a chamava de "Naninhas".

Viu a mãe sair de manhã para o trabalho, enquanto brincava com uma boneca improvisada por um trapo velho, entregue aos cuidados da irmã mais velha.

Cresceu, no sobressalto que a vida guardava diariamente com a cumplicidade do pai nas tabernas que lhe cobraram o soldo e as carreiras de bombeiro e a de sapateiro, a que substituíra a de soldado da Legião Portuguesa, por refutar fazer parte da polícia política, recusando fazer aos demais o que condenava que lhe fosse feito a ele.

A adolescência, entregou-a no trabalho, às vezes gratuito, no arranjo das peles e na feitura de tapetes de arraiolos, na pretensão de lhe servir de ofício para um futuro que nunca chegou.

Casou no recato do lar numa cerimónia discreta, não conhecendo o caminho do altar por um casamento que já lhe guardava nos maus tratos o quanto a vida pode ser agreste, quando o amor é pouco mais que um sonho para quem não chega a dormir para sonhar.

Sofreu a dor da surpresa de encontrar o pai enforcado na cozinha, após o ter ouvido trautear o fado da Mouraria, cuidando que o som do cair das molas da corda de estender da roupa no quintal, seria apenas uma denúncia de um qualquer acto inocente, próprio da esperada embriaguês.

Suportou de mãos postas em orações no quarto de dormir, o que a má língua constrói e destrói no lar, enquanto palavras e agressões dão vida à mentira e ao ciúme, acirrados nos conselhos e desaconselhos por um casamento que uma má família conjugal atormentava de maldade.

Subsistiu no silêncio e no desespero à tuberculose que levou ao internamento do marido durante nove meses e à entrega temporária da filha de cinco anos à irmã, para que assim a privasse do contágio que lhe poderia ser fatal.

Privou com a dor e o desespero supremos na vida, na fatalidade que no entanto lhe estava guardada ao ver falecer a filha atropelada em acidente de automóvel, quando esta ia acompanhada pela tia, após a ter visitado.

Viu sózinha, falecer-lhe nos braços o cunhado a quem prestou o derradeiro cuidado, ao som do pedido de desculpas pelo mal que outrora lhe causara, num arrependimento igual ao da sogra e mãe daquele, com o incómodo de quem nos devolve cuidado pela maldade enviada, quando os outros já os haviam abandonado.

Aceitara no cuidado maternal, a sobrinha que ficara órfã de pai, quando saindo da companhia da mãe a quem rejeitara aos treze anos, lhe batera à porta, para ser tratada como filha, até voltar a sair, casada, para mais tarde revelar a ingratidão durante as quatro décadas em que ignorou os que lhe quiseram como pais.
Viu-se apartada da justiça na morte da mãe que dedicada amara sempre, quando a honestidade não conheceu na irmã que com aquela vivia, nas justas das partilhas que os demais irmão e irmã lhe veriam nela.

Trocou-lhe a vida os passos, quando o anúncio de um mioma lhe ocultou uma gravidez que já não pode condenar, como o fizera a outras como esta, indesejadas, condenando-a a ter um filho que não queria e que um casamento não desejava.

Sofreu no corpo e na alma a dezena de operações a que a fraca saúde obrigara e lhe tomara a audição de um ouvido e um rim, anunciando-lhe a pouca vida esperada e o tormento da necessidade continuada dos cuidados médicos, que lhe salvariam repetidas vezes a vida, enquanto conhecia a realidade a que resignada se submetia à de uma tuberculose renal, o pûs que lhe invadira as entranhas, um coração que lhe fora perfurado na colocação de um pacemaker, uma trombose que a marcara e tantas outras iguais de dor e e sofrimento, que culminariam numa infecção dolorosa de uma bactéria multi-resistente de que sairia milagrosamente sobrevivente.

Viu-se arrancada à vida e ao lar que amava, quando a situação conjugal lhe atentava contra a vida, a que o filho se vira obrigado a resgatar, na cobrança da equidistância filial até então, dando mote às vozes dos que tudo falam e julgam, mas nada sabem e em tudo erram por ignorância e má-fé.

Conheceu naquela que tomara como filha com o filho, a rejeição última que a condenara como outros iguais àquela, a um sofrimento que a infâmia haveria de cobrar, quais hienas acossando injusta e vilmente a vítima enfraquecida, remetendo-a ao ostracismo que lhe tomaria muitas das forças que já lhe faltavam.

Fez-lhe o destino a má surpresa de vir a despedir-se do marido de quem fora obrigada a apartar-se, agora numa última despedida a três com o filho, enquanto aquele a via na derradeira visita, antes de partir sofrendo desta vida.

Fizeram os homens, que passasse os últimos anos de vida repartida, primeiro entre a casa onde se instalara em repouso, nos cuidados do filho que amava e a quem Ela emprestava o chamar de "anjo da guarda" no trato, e depois no lar que este a insistira acolher, para aí descansar digna e condignamente nos tratos cuidados e onde viria a partir desta vida nos braços daqule que a não abandonara num amor incondicional para a procurar proteger de tudo e de todos, e que Ela juntara ao pai e avô deste, nas duas pessoas que mais a haviam amado desde sempre.

Nasceu no dia de Natal que lhe traçou o nome e à semelhança de Cristo, acabou crucificada pelo sofrimento e pela maldade de muitos a quem a dignidade se mostrou alheia, mas que a Ela lhe fora sempre conhecida.
Pobre Mulher que sem razão, sofreu à mãos de uma vida que lhe teimou em dizer "não".
Chamava-se "Natalina", era a minha Mãe e faleceu nos meus braços, num último beijo solitário, ao som das lágrimas que ainda choro.
Foi com Ela que a minha vida começou enquanto a sua só terminará com o final da minha.

Querida mãezinha, repousa lá no céu eternamente, enquanto maldigo os que te fizeram sofrer, transportando nas minhas, as tuas lágrimas de um choro que não pára e as minhas mãos se cerram de dor e de revolta pelo quanto sofreste vã e vilmente, qual leão antes de se lançar sobre as hienas malditas que te acossaram.

A tua, poderia ser a história de uma santa qualquer, à semelhança da Santa Filomena que tanto admiravas pelo sofrimento que lhe reconhecias por devoção. Mas não conhecendo tu o altar dos santos, conheces o altar em que te guardo no meu coração.

Que não se atreva a terra a corromper o teu corpo, que não faça o destino na morte o que os homens não souberam fazer em vida à tua alma. E quando eu partir deste mundo, leva-me de mão dada para os que te quiseram bem para que te possa ver e adorar de novo.
Beijo as mãos num "Muito Obrigado" aos que estiveram do meu lado na última estapa da vida de minha Mãe, quando outros lá não estiveram nos momentos mais difíceis, que só a presença sabe descrever:
  • Prof. Dr. Gorjão Clara (Dir. do Serviço de Medicina II do Hospital Pulido Valente), a quem minha Mãe deveu a vida várias vezes;
  • Dra. Teresa Fonseca (Dra. do Serviço de Medicina II do Hospital Pulido Valente), a quem minha Mãe deveu a vida várias vezes;
  • Dra. Glória Silva (Dra. do Serviço de Medicina II do Hospital Pulido Valente), a quem minha Mãe deveu a vida várias vezes;
  • Corpo clínico do Serviço de Medicina II do Hospital Pulido Valente (médicos, enfermeiros, técnicos e pessoal auxiliar), a quem minha Mãe deveu a vida várias vezes;
  • Corpo clínico do Serviço de Cardiologia e de Pneumologia do Hospital Pulido Valente (médicos em especial o Dr. Nuno Lousada, enfermeiros, técnicos e pessoal auxiliar) pela preciosa assistência que repetidas vezes foi determinante na vida de minha Mãe;
  • Santa Casa da Misericórdia da Venda do Pinheiro e terceiros a pedido desta, com quem tenho uma dívida eterna nos preciosos a atentos cuidados prestados diariamente à minha Mãe;
  • Lar da Santa Casa da Misericórdia da Malveira, onde a minha Mãe foi acolhida com a dignidade que todos os idosos merecem e que se tornou assim, uma extensão da minha própria casa, num cuidado constante que igualmente procurei dar;
  • Aos Amigos que me deram o apoio anónimo em momentos que precisei deles, incluindo em termos logísticos quando foi necessário;
  • Ao meu cunhado que contra-corrente dos demais, se afirmou pela confiança em mim;
  • À Maat e à Maria do Céu pelo cuidado e homenagem prestada nos últimos momentos de vida de minha Mãe;
  • Àqueles que sob o símbolo da Acácia foram fraternalmente preciosos no momento mais doloroso;
  • À minha tia Julieta e primos, que sempre estiveram do meu lado e foram justos no discernimento;
  • Ao Sr. João e Dna. Emília através de quem foi possível alojar a minha Mãe com o conforto desejado.
  • ... e aos demais que a memória, por lapso aqui não inscreveu mas que estiveram também.

quarta-feira, abril 16, 2008

O sonho de Amir


O deserto de Abd-Al-Rahman fora em tempos uma região verdejante e plena de vida, tendo-se tornado por isso, local de passagem para as caravanas de mercadores, que aí faziam repousar-se a si e aos seus camelos, entre jornadas sucessivas sob um sol ardente.
Guerras e disputas de clãs rivais acabaram por dizimar, tanto a região como os que nela viviam ao ritmo de memórias das árvores que outrora se estendiam em formas caprichosas, oferecendo generosas sombras aos viajantes, ao som do canto dos pássaros que teciam vôos ondulados de cortejo.

Amir, era um jovem moreno. Perdera como os demais, tudo e todos, restando-lhe apenas um pequeno fio de pérolas, recordação de um antigo colar que pertencera a seus pais e que guardava cioso da sua origem e dos tempos em que corria feliz para o colo materno ante o sorriso complacente do pai, a quem gostava de acompanhar nas jornadas.
Naquele dia, Amir como habitualmente fazia, repousava junto a uma velha palmeira que como ele, tornaram-se os únicos que ainda resistiam naquele local, agora deserto e onde as sombras se haviam tornado fantasmas impávidos do passado. Ele desejava acima de tudo, que o destino lhe desse um amigo com quem pudesse partilhar o estar ali, à míngua daquela solidão que mal entendia e a custo suportava.
Na companhia de ninguém e na falta de outro mister que não fosse o de buscar o alimento diário para o corpo, Amir deixou-se adormecer sobre o leito de areia fina que o sol dourara, agora amaciado pela sombra que a velha palmeira guardava de sentinela. Dobrara um dos braços para na mão receber a cabeça, servindo de almofada, enquanto a outra estendida acompanhava o corpo, para no final repousar a mão sobre o bolso dos calções de caqui, qual guardiã do seu único tesouro que ali guardava a coberto do mundo.

Durante o sono amolecido pelo calor omnipotente que tudo cobria, Amir teve um sonho, no qual viu aparecer-lhe uma mulher idosa e curvada pela aparente idade. Tinha uma expressão esbatida pelo tempo e um sorriso de traço fino e discreto, formando um conjunto que se condensava num olhar maternal e meigo, de um brilho suave e cálido, onde a alma se embala só de ver. Aquela figura, que embora desconhecida lhe parecia familiar, olhou para ele e disse-lhe “Amir, se queres um amigo, levanta-te e busca-o e quando o encontrares, dá-lhe o que de mais precioso de ti tiveres”.
Amir acordou sobressaltado. O sonho que tivera, parecera-lhe tão real que o aroma a rosas que agora sentia no ar, ainda o confundia mais. As palavras que ouvira, repetiam-se na sua cabeça em ecos de ninguém, qual ordem que embora confuso, estava a pondo de obedecer.
Após hesitar durante alguns momentos, Amir decidiu seguir o conselho que recebera durante o sonho.
Levantou-se, recolheu uns poucos víveres para a viagem e seguiu ao acaso, por um dos caminhos que as caravanas de mercadores costumavam usar outrora.
A dois dias de caminho, encontrou outro jovem que como ele, se encontrava só, dedicando-se ao cultivo da terra que herdara dos pais e de onde extraía o magro sustento. Amir, ofereceu-se para o ajudar no trabalho diário.
Com o passar dos dias, Amir apercebeu-se que o jovem amigo passara gradualmente a delegar nele o trabalho que antes era repartido pelos dois e que assim a sua boa vontade estava a ser usada em proveito injusto. Cansado da situação, Amir decidiu partir e apesar da razão que o levou a tal decisão, ele estava grato pela companhia do amigo e por isso decidiu oferecer-lhe uma das pérolas que sempre guardara ciosamente, para que o amigo ficasse com uma recordação indelével dele.

Assim, Amir retomou a viagem, na intenção de busca de alguém que pudesse ser seu amigo. À noite antes de adormecer, Amir notara que o seu bolso aparentava estar mais cheio. A busca da razão não tardou a denunciar que inexplicavelmente no lugar da pérola que oferecera ao amigo antes de partir, duas lhe ocupavam agora o lugar. Admirado mas sobretudo resignado ante o que não entendia, deixou-se adormecer, vencido pelo cansaço.

A alguns dias de viagem, Amir encontrou um homem idoso que fabricava calçado. Amir sentou-se junto dele e após observar atentamente como o homem trabalhava, começou a ajudá-lo à medida que ia aprendendo a arte de sapateiro.
Passado algum tempo, Amir notara que o idoso sapateiro ia-se comprometendo com mais encomendas, com o objectivo de forçar Amir a ficar com ele e assim, aumentar o seu rendimento e o lucro próprios.
Desejoso de mudar de situação, Amir decidiu partir de novo e estando mesmo assim, grato pela companhia e por tudo o que aprendera com aquele homem, Amir decidiu oferecer-lhe também, uma das suas pérolas.

Nessa noite, mais uma vez Amir ficou supreendido pelo facto de encontrar duas pérolas no lugar da pérola que oferecera.

Amir foi viajando e conhecendo vários amigos e em todos eles encontrara companhia, conhecimento mas também algum motivo de descontentamento, mas a quem apesar de tudo, dera algumas das suas pérolas para que retivessem dele, uma recordação que o tempo não apagasse, as quais por sua vez, inexplicavelmente foram redobradas na sua substituição no velho colar que herdara de seus pais.
Cansado de viajar e da busca do amigo que desejava, Amir resolveu voltar à aldeia que o vira nascer e que de tão familiar, lhe acalentava a alma com o matar da saudade que tanto o contrariara enquanto viajante.
Quando chegou, já ao anoitecer, sentou-se no seu lugar preferido junto à velha palmeira que ainda o aguardara, enquanto colocava diante de si o precioso colar de pérolas, agora aumentado no seu número, tentando perceber a causa.
Contudo, já vergado pelo cansaço da jornada, Amir deixou-se adormecer, remetendo ao abandono o cuidado habitual de guardar no bolso dos calções o seu mais precioso bem.
Já de manhã, Amir acordou suavemente com uma carícia do Sol matinal que a velha palmeira deixara passar entre a folhagem, que atenta guardava o sono do jovem adormecido.
Levantando-se, Amir reparou que deixara as pérolas ao descuido do relento e que agora reluziam intensas sob os raios de Sol que nelas faziam o alvo preferido entre tudo em redor.

Quando já habituados os seus olhos àquele brilho intenso, Amir reparou que todas e cada uma delas reflectiam as imagens de todos os amigos e familiares que conhecera e que juntas formavam a imagem que reconhecia ser a sua neles reflectida.
Surpreendido, Amir esfrega os olhos, cuidando ainda estar a sonhar, à medida que se apercebe que aquelas imagens eram reais e estavam vivas como ele, respiravam como ele e falavam a sua língua.

Amir ainda não refeito da surpresa, levou precipitado a mão ao bolso, que esperando vazio, um pequeno volume revelava na busca, de novo o seu colar de pérolas, que segurou nas mãos entre os que agora o acompanhavam, envoltos no aroma de rosas que Amir já conhecera antes.

segunda-feira, abril 14, 2008

Se o meu silêncio se ouvisse


Se o meu silêncio se ouvisse,
ouviam-se vozes de revolta.
Entravam nos templos os excluídos, para aceder aos altares dos santos.
Tiravam os véus os crentes, numa oração sincera de cara descoberta diante dos deuses;

Se o meu silêncio se ouvisse,
ouvia-se o choro mudo de crianças que não brincam.
Agarravam os anciãos, nas espoletas da mentira com que os falsos profetas alimentam o mundo, num deflagrar de expiação;

Se o meu silêncio se ouvisse,
ouviam-se no vento, gritos de saudade dos que foram e não partiram e dos que partem mas não se vão.
E a vida deixava a forma das marés que vai e volta em ondas de saudade;

Se o meu silêncio se ouvisse,
os meus braços iam mais além e as minhas mãos chegavam dentro de mim.
E o meu rosto mostrava nos olhos o olhar vazio do céu, enquanto caiem estrelas como rosas amarelas;

Se o meu silêncio se ouvisse,
a minha alma chegava mais além.
E eu, não seria mais que ninguém,
se o meu silêncio se ouvisse.

quarta-feira, março 19, 2008

Pai, no dia ...


- Pai toma é para ti.
O passo era apressado e as mãos pequeninas traziam dois embrulhos, num cuidado que justificava toda a pressa do mundo. Aqueles pequeninos olhos castanhos ganhavam agora o tamanho da lua e o sorriso que os acompanhava era bálsamo para todas as maleitas do corpo e da alma que assim se juntavam na árdua tarefa de descobrir o que naquelas prendas se adivinhava.

- Ena pá, duas prendas, que bom.
- Sim pai, esta fui eu que fiz na escola e esta fui eu que comprei.
As mãos do pai aplicaram-se no retirar a fita-cola e no abrir o papel de embrulho dobrado com cuidado, enquanto a face do filho denunciava um crescente de inquietação e ansiedade.

- Rasga o papel, pai.
Era a ordem suprema de quem não suporta a espera da surpresa a causar no remate do evento.

- Olha que giro, um coelhinho da Páscoa e está mesmo bem feito.
- Abre a outra também, pai.
A tarefa de abrir o embrulho repete-se, assim como a ansiedade do filho, que não tarda na exigência da pressa de rasgar o papel que divide a surpresa do espanto de a conhecer.

- Olha que bonito baralho de cartas, e tem nas costas o dizer “Pai tu és o meu herói”.
- Sim pai e agora podemos jogar os dois com elas.
- Sim podemos, hoje e sempre.
O momento ia-se consumindo nos dois sorrisos cúmplices que abraços e beijos selavam em segundos de oiro que elevavam quaisquer prendas à condição das mais belas jóias, das que nenhum ourives seria capaz de reproduzir que não fosse somente na condição de Pai.

- E tu pai, que prenda deste ao teu ?
Primeiro fez-se silêncio, depois as palavras foram substituídas por um abraço apertado e um beijo sentido, agora que a alma os emprestava no tempo e no espaço.

sábado, março 08, 2008

Dia Internacional da Mulher


Foste tu quem me agarrou mal nasceu, ainda com a pele imaculada de quem saiu da escuridão e recebeu a luz enquanto te repousaram sobre o peito de tua mãe, onde te aconchegaste no mais sagrado dos colos, imune na condição de Filha.

Foi a ti que dei a mão, quando juntos brincámos nos quintais da inocência enquanto crescíamos, cientes de que nunca seríamos mais velhos que tu, eterna Irmã.

Foi para ti que corri, sempre que o meu coração batia mais forte e de mãos dadas fomos descobrindo o mundo pelas estradas da vida, olhando para tudo o que os nossos corações viam mais além de seres a melhor Amiga.

Foi contigo que descobri que o coração sonha mais alto que os homens e que as mãos se dão num desejo comum, partilhado a dois, quando te tomei nos braços como eterna Namorada.

Foi para ti que em silêncio olhei, no encanto dos sentidos, enquanto bordava momentos de prazer com os teus cabelos de seda e te olhei os olhos numa face de menina, enquanto te chamava de bonita e te tomava no lugar de Esposa.

Foi contigo que contei todos os dia quando a vida me pedia mais do que a alma consentia e as mãos deixaram de estar vazias quando te vi no lugar de Companheira.

Foi a ti que me agarrei mal nasci, ainda com a pele imaculada de quem saiu da escuridão e recebeu a luz que encontrei no teu sorriso enquanto me repousaram sobre o teu peito, onde me aconcheguei no mais sagrado dos colos, o de Mãe.

Seja a ti quem os meus olhos por último vejam quando se fecharem, como foi no princípio do meu ser e o meu templo sagrado se eleve aos deuses, quão sagrada és Mulher.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

O diamante vermelho


No reino de Philia reinava uma harmonia rara, guardada zelosamente por deuses e guardiões dos templos numa convivência tranquila marcada pelo ritmo da sucessão dos dias soalheiros doirados e das noites de um luar prateado ameno.
Seguindo tradições ancestrais, a princesa Philumenae fora confiada pelos deuses ao Guardião do Templo sagrado do Destino, até que fosse chegada a hora achada por aqueles, para que tomasse o seu lugar entre iguais na corte, a que pertenceria até à eternidade. Para isso, fora instruída pelo Guardião do templo para que nunca se aventurasse além dos limites do templo, onde começavam os domínios profanos, pertencentes ao reino de Jahelus, conhecido e acusado de seduzir belas jovens, tornando-as suas escravas, retirando-lhes todo o conhecimento e consciência.
Assim, Philumenae passeava-se dentro dos limites do templo, sem que porém, deixasse de observar com curiosidade todo o espaço que se lhe apresentava diante onde desejava poder correr livremente, mesmo que isso contrariasse as indicações que recebera, tanto mais que nada nem ninguém parecia estar por perto.
Dia após dia a tentação crescera até que esta tomou o lugar da obediência assumida antes e assim Philumenae decidiu correr livremente, nem que fosse por uma única vez, pois que não vendo ninguém, nada de mal lhe aconteceria.
De volta ao templo o caminho de regresso ficou assinalado pelos passos dados por Philumenae, gravados nas pegadas deixadas no pavimento de pedra pela terra vermelha que agora teimosamente lhe cobria os pés denunciando o terreno que pisara.
Furioso e antecipando o castigo que o esperava da parte dos deuses, pela não observância da tradição, o Guardião do templo, desesperado ordena o degredo da jovem princesa para o deserto nos confins do reino de Philia, onde deveria permanecer até encontrar coisa ou bem que pudesse pagar pela falta cometida e aplacasse a ira dos deuses.
Triste e desiludida, Philumenae foi conduzida ao deserto, onde durante anos iria procurar algo que por grande valor, só poderia ter o valor da mais preciosa das joias.

Entretanto, a busca constante de anos a fio, crestara-lhe a pele e na face duas linhas brancas testemunhavam o rasto do sal de lágrimas há muito choradas, enquanto o tempo desenhava-lhe caprichos na forma de rugas que lhe tomavam de assalto a beleza pela qual antes já fora conhecida e admirada por todos os que a viam.
Todas as noites, quando cansada se abandonava ao sono sobre a esteira que lhe servia de leito, Philumenae tinha o mesmo sonho em que uma voz lhe dizia “busca perto a jóia mais valiosa”. Assim, todos os dias , buscava sem cessar qualquer jóia que se afigurasse de grande valor, embora apenas encontrasse pequenos fragmentos de vidro, aparentemente pertencentes a um espelho antigo que alguém atirara fora quando se partiu.
Passado muito tempo e desiludida com a falta de resultado das buscas, decidiu apresentar-se resignada ao Guardião do templo, para que lhe aplicasse o castigo capital, pois nada encontrara de valor, que não fossem apenas os fragmentos de um espelho velho e sem utilidade.

Assim, dirigiu-se ao Templo do Destino para se submeter à vontade do Guardião entregando-lhe apenas o velho espelho partido, esperando o castigo que decerto lhe seria fatal. O Guardião pegou no espelho estilhaçado e com relutância pediu a Philumenae que o olhasse na busca de alguma utilidade. Philumenae assim fez num gesto resignado, acompanhado pelo desdém do Guardião que adivinhava a resposta que justificasse o castigo que lhe premeditara.

Todavia, ao olhar da princesa no espelho quebrado em mil pedaços e para espanto desta, as rugas da sua pele tomavam agora o aspecto de pequenas faces lapidadas e a sua pele ganhara uma tonalidade enrubescida com reflexos rubros e os olhos soltavam um brilho quase incandescente, enquanto os cabelos retomavam a cor de azeitona escuro de outrora. Procurando rever-se no espelho, não via agora as fracturas dos fragmentos do mesmo que encontrara, em vez disso, via nele o reflexo de si mesma, na mais cobiçada das jóias, ... o diamante vermelho. Reencontrara-se.

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Miminho


Recebi há dias um "prémio" da minha amiga SHA, que com isso, pretende homenagear algumas das pessoas que com ela se relacionam através da blogosfera, nomeadamente na sua componente virtual, onde a Amizade não deixa no entanto, de se poder manifestar em pleno.

Obrigado SHA pelo teu mimo, do qual me encontro infinitamente menos merecedor que tu mesma. Subscrevo completamente os critérios de quem te atribuiu tal distinção, tanto quanto os teus ao reconhecê-la também.
Mimam-me os deuses no carinho e amizade através das pessoas de quem gosto, diante das quais me inclino humildemente no agradecimento ao saber-te igualmente entre elas.

Resolvi no entanto, na habitual continuidade do gesto, ir um pouco mais além na atribuição do mesmo "prémio". Assim, decidi não me limitar na sua atribuição genérica e quase discreta, antes pelo contrário, deixar aqui, de forma delatória o quanto gosto das pessoas visadas, que a vida me deu a conhecer, quer tenham blogs ou que sei acompanharem este blog, nomeadamente e sem qualquer critério que dite a sua ordem de referência. Sei que mais gente me é importante aqui e me perdoem se por esquecido possa ter padecido se for o caso.

Levanto-me e grito bem alto o quanto a amo, naquele Amor que não se sabe definir e que se incorpora no abraço mais fraternal. É a "Mãe" que qualquer um de nós gostaria de ter, sobretudo os que já não a têm e que n'Ela a podem rever ainda que num recolhimento silencioso.
Não posso esquecer o carinho e atenção permanentemente dispensados num sorriso maternal inesquecível, sobretudo nos momentos mais emotivos, aos quais apenas posso responder num beijo filial nas mãos sagradas.
Perdem na virtualidade os blogs a força da comunicação, quando as pessoas se tornam constantemente presentes no pensamento.
Lhe seja grata a vida na alegria, Maat, tanto quanto lhe sou eu no mais puro dos afectos.
Bem haja querida Maat e um muito obrigado por tudo. Deixo-lhe uma rosa.

MARIA DO CÉU (A luz do voo):
Com algumas pessoas não são precisas muitas palavras para as entendermos e sentirmos o calor do entendimento a que nos remetem ao conforto de uma Amizade plena no consentimento quase fraternal.
Não é em vão nem por acaso que a trato em privado por "Irmã", que nessa condição o comportamento e sentimento fraterno a têm assistido a miúde em momentos que a memória não apaga para que nunca deixe eu de saber quem sou.
Te seja amiga a vida Maria do Céu, tanto quanto mostras ser pelos outros.
Bem hajas querida Maria do Céu e um muito obrigado por tudo. Deixo-te uma rosa.

Têm sido os momentos de diálogo, muitas vezes os únicos, que ora em dias alegres de sol fizeram soltar gargalhadas circunstanciais ora em dias mais sombrios se constituíram como abraços na tentativa franca de partilhar os momentos menos bons, mesmo quando o sorriso rompe as barreiras da virtualidade, no testemunho da mais sagrada Amizade a que poucos almejam conseguir corresponder na sua plenitude.
Te seja generosa e justa a vida em tudo o que de bom te guarda, tanto quanto te possam desejar os que mais te querem.
Bem hajas querida SHA e um muito obrigado por tudo. Deixo-te uma rosa.

ANA LUAR (Ana Luar):
A vida coloca-nos por vezes no nosso caminho pessoas, cujas pegadas ficam indelevelmente marcadas qual tatuagem na alma, que assim reforça a intensidade com que a nossa existência é arrebatada no prazer de rir, aprender, descobrir e amar.
Raramente reunem os deuses numa vez só o quanto a maioria de nós queria descobrir ao longo da vida, mesmo que a perfeição e a imperfeição se misturem numa palete de cores, onde a arte humana do sentir se desdobre em sentimentos diversos.
Te seja Ana, justa a vida e os deuses e façam poisar na mão a felicidade que sobre ti paire.
Bem hajas querida Ana Luar e um muito obrigado por tudo. Deixo-te uma rosa.

BERNARDO AZINHEIRO (Letras à margem):
Quando já temos muitos anos, são muitas as vezes que nos questionamos sobre o que gostarímos de fazer se voltássemos atrás no tempo ou sobre o que gostaríamos de ser ou ter sido.
O Bernardo é daqueles adolescentes onde qualquer um de nós gostaria de se rever e que as sortes do destino me colocou na gentileza de uma partilha afectiva que a Amizade testemunha na maior intensidade. Gosto dele, gosto muito dele, não só por quem é, mas sobretudo por aquilo que é, digno de converter qualquer pai ou mãe à mais sincera oração de agradecimento aos deuses.
Te seja gentil a vida Bernardo, no conhecimento e fácil te torne a caminhada para o alcançares.
Bem hajas caro Bernardo e um muito obrigado por tudo. Deixo-te uma rosa.

Quero também homenagear aqueles que apesar de não terem blogs, têm sido igualmente uma razão de todas as palavras ditas, escritas e sentidas, num parto partilhado em leituras atentas, muitas vezes apenas comentadas no recato de conversas pessoais, no conforto que a virtualidade concedeu à vida real, nomeadamente:

CECÍLIA:
Não ficaria completa qualquer oitava sem que todas as notas se pudessem tocar nem qualquer flor se lhe faltasse alguma das pétalas nem qualquer jóia sem a mais preciosa das pedras. Assim é a Cecília para muitos que a rodeiam, seja pela sua força interior, seja pela luz que transmite e que devota numa dádiva constante que a generosidade assumiu como sua imagem característica, fazendo ajelhar deuses e homens, gratos pelos gestos e pelas palavras. A eles me junto na homenagem, como o mais devoto no reconhecimento que muitos anos já conhecem.
Te seja justa a vida em tudo o que de bom te ofereça, que será sempre pouco para para com o merecimento do quanto dás, mesmo em silêncio dos pequenos grandes gestos.
Bem hajas querida Cecília e um muito obrigado por tudo. Deixo-te uma rosa.

ANSELMO:
Frequentemente a Amizade sobrepõe-se irreverente aos graus de parentesco, remetendo-os para um plano menor, quando o bem querer une as pessoas no mais intenso e generoso dos afectos. Assim, ao parentesco de "cunhado", a condição de "Irmão" toma forma em tudo o que me une ao Anselmo, num sentimento a que os anos apenas têm acrescentado a maturidade do tempo, qual o mais frondoso dos carvalhos numa floresta selectiva às gentes que nela ousam entrar num cerimonial iniciático.
Muitas das palavras e sentimentos que constituem este blog, fazem parte do conhecimento que o Anselmo tem de mim, muitas das vezes lidas num silêncio condescendente de quem testemunha uma vida que se desenrola nos mesmos princípios.
Te seja gentil a vida Anselmo, tanto quanto a tua Amizade que quase diariamente testemunho.
Bem hajas caro Anselmo e um muito obrigado por tudo. Deixo-te uma rosa.

Sois todos vós, nas rosas que aqui vos deixo, que constituís o mais belo ramo com que decoro a minha vida junto dos que mais amo na vida, nomeadamente o meu filho e sobrinho, mesmo que venere muitas vezes em silêncio, enquanto inalo o mais sagrado dos perfumes, o da vossa Amizade, a que apenas me posso arrogar de tentar ombrear no mais sincero reconhecimento.
Bem hajam e um obrigado por tudo.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Entrudo dos sentidos


O batuque dos tambores transporta-me como uma folha levada pelo vento criado pelo arfar dos cantares acesos pela festa pagã que nos leva na levada do tempo.

Num silêncio quase cerimonial, onde só o silvo suave da respiração invade profano este espaço, a pele toma nova forma, vestindo-se para um novo desfile.
Os braços espreguiçam-se e adaptam-se a uma nova condição, onde as mãos estão mais longe e o céu se tornou o limite do imaginário.
As pernas desconhecem agora o chão e acompanham o vôo na sensação de estar ausente diante de todas as sombras que testemunham a dança anónima dos sentidos.

Completa-se a mutação dos seres, com a máscara que agora ponho decorada com um olhar alheio e o sorriso toma a forma de uma barca que navega numa satisfação cuidada, adornada pelos cabelos que descaiem em manto de rainha sobre a alma que coloquei como penhor de mim.

Não sei quem sou agora e os demais não me vêem, porque estou ausente. Vesti-me de ti.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Insanidade profana


Pé ante pé, sigo no meio da estrada num passo apressado, ao desafio do trânsito que me passa ao lado, num vai e vem que me roça as roupagens e a alma. O dia veste-se de azul manchado de branco e cinzento, qual descuido de pintor a quem o tempo não se emprestou para acabar a obra celeste.

O pavimento troça do sol, com um irreverente tom escuro, ao longo do caminho que se estreita na razão inversa da proximidade, terminando ao longe num traço fino de cabelo, entre a cabeleira farta do horizonte que teima no olhar complacente dos que passam adiante.

Refreio de repente, quase esbarrando numa criança que se atravessa no caminho, montada numa bicicleta a que falta uma roda e em que o guiador resultou dum bordão arrebatado a um profeta que desistira de caminhar ali perto, onde os homens e mulheres se tornam iguais.

Retomo o caminho, agora ziguezaguiando entre peregrinos que seguem em sentido contrário, em direcção a uma catedral onde não me deixo entrar, enquanto santos abandonam os altares e agora se sentam como pecadores no primeiro degrau do altar-mor, orando na humildade dos sentidos.

Começou a chover uma chuva miudinha, numa bênção generalizada, levada a cabo pelas mãos de uma tempestade paramentada de relâmpagos, a que se juntaram freiras e cardeais num concílio escrito no chão, por onde caminham infiéis devotos de braços abertos numa histeria colectiva porque o sol nasceu da noite.

Baixo-me num último segundo, escapando por tempos imemoriais dos abutres que fazem vôo raso por sobre as cabeças rapadas de sentimentos, alheias aos cânticos que se fazem soar numa ruela que se apresenta ortogonal à direcção por onde já ninguém se vê caminhar a horas vagas.

Quase chegado ao fim do espaço que a vista alcança, uma criança sentou-se na beira da calçada, de braço estendido, aproveitando o momento de oração profana para mitigar a fome colectiva com nacos de hóstias consagradas aos deuses primordiais. Vejo-lhe os olhos pintados de dourado, da cor dos cabelos e da talha do oratório onde pregou a cruz que lançou aos olhares das multidões que a ignoram.

No banco de um jardim do lado onde o sol se põe, jaz uma mulher cansada de abortar os gritos que lhe magoam o corpo, que amordaçou com uma longa tira de pano tingido de uma cor púrpura que a chuva tingiu com os pecados dos que a condenam num coro arrebatado pelo silêncio cúmplice da bênção papal.

A chuva deu agora lugar a vagas de vento e granizo, com as quais rodopio numa dança louca, esquecendo-me de quem sou. Beatas clamam-me pela santidade arremessando crucifixos que as mãos dos crentes recolhem avidamente numa injúria satânica a que me remetem in extremis.

Chegado ao fim da rua, esta denuncia-se numa pista traçada sobre o vinil pintado com a cor da minha sombra, onde me revejo na etiqueta que ostenta o meu olhar sobre um disco que mãos secretas fazem rodar ao sabor dos tempos.

Aproxima-se derradeiro um homem curvado pelo esquecimento, amparado pela mãe que lhe toma o pulso, escrevendo sermões num sorriso emprestado por anjos esvoaçando em redor num bailado de andorinha.
Abraçam-me numa redenção à loucura que bebia a tragos curtos pelo cálice sagrado da inocência.

Por fim, julgara-me homem entre deuses, qual Deus entre os homens de regresso ao passado em que voltara de novo ao princípio do caminho que acabara de percorrer em busca da fé.

domingo, janeiro 13, 2008

O último quadro


A tampa do baú abriu-se renitente, exaltando as dobradiças a soltar um gemido que denunciou a tentativa de recordar o passado.
Entre memórias velhas, encontrara imagens e escritos a que o pó não se agarrara, por respeito ao tempo que já passado, se encontrava tão presente como o dia anterior.

Havia decidido dar-se na forma e jeito das imagens de antanho a que dedicara a arte e o engenho. Tomara-os como o que de mais precioso guardava como oferta primordial, reservada aos altares do pensamento, onde se despia de si mesmo para dar lugar aos outros que lhe eram especiais.
Pegara nos desenhos e poemas que tinha feito em momentos de loucura, à mingua de um pouco da felicidade que encontrara apenas no final de cada realização. Pegou em cada um deles e vestiu-os do sentimento de cada pessoa que quisera ali com ele e naquele momento, numa moldura que os juntasse sempre e a todos, como numa última ceia, onde se vestissem de apóstolos sem qualquer Deus mais alto que o mais humilde dos presentes.
Prontas as ofertas, foi-se distribuindo a ele mesmo pelos demais, num gesto e dádiva diferentes em cada rosto que buscara, num cerimonial único de entrega, onde apesar de tudo, via-se saindo mais enriquecido no vazio que lhe restava.

Finda a caminhada e não encontrando mais ninguém, havia ainda um quadro que sobrava na ausência dos que lhe faltavam. Dura era sempre a falta, mesmo que precária pela distância, fosse do tempo ou do espaço. Não poderia assim, ofertar de si, nada que fosse material, condição imposta que assim seria a contento de quem a quem quisera fazer homenagem.
Vencido agora pela distância, mais do que pelo intento, inconformou-se pelo caminho que percorrera e seguindo, mais só e mais além, da margem atirou ao rio aquela que era a sua última obra.

De ora em diante, diriam os pescadores, que em noites de lua cheia, seriam encantados pelo olhar de menina, numa mulher de face de porcelana emoldurada por longos cabelos de seda. Emergia esta, das águas que a viram nascer, carregando nas mãos um quadro pintado da cor da noite, trauteando uma canção suave de embalar.
A tampa do baú fechava-se agora condescendente, acompanhando as dobradiças oleadas pelo silêncio com que iam guardando o presente.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Minha Mãe ... o último dia (25-12-1929 ... 4-1-2007)


Disfarçava o sol numa manhã clara,
No caminho diário que tanto conhecera,
Já ao coração também a alma se juntara,
Na angústia que seguir, a vontade amolecera.
Era o chamamento que adivinhara,
Chegado o dia que o Amor tanto já temera.
Mudando de rumo, junto d’Ela a ida se fez,
Sendo ele o derradeiro, e último de vez.

Ainda consciente, as palavras quais sinos,
Anunciaram na manhã a presença desejada;
Era primeiro o Filho antes de outros peregrinos,
Uns por Amor e outra de consciência pesada.
Veio a tarde e já dormindo a vimos,
Num descanso crescente que a vida abandonava,
Via-se cumprir o destino de quem tanto amou,
Que um arco-íris com rosas brancas anunciou.

Veio a noite fechar o último dia,
Enquanto outro rápido já se viu;
Cessam por fim o olhar e a vida com o dia,
Que agora acabou e já partiu.
Enquanto a tomei junto ao peito que doia,
Chorando juntos o que já só um de nós sentiu,
Parou calmamente de respirar em sono manso,
Juntando-se a pais, filha e esposo, no descanso.

Dorme eternamente no ataúde sagrado,
Tu que tomando nos braços eu lá te deitei,
Assim mais ninguém te haverá tocado,
Nem às rosas que nas mãos te coloquei,
E outras de chá que te cobriram o corpo deitado,
Tantas quantos os anos conhecidos te sei.
Juntei-lhes ainda as palavras que li na alma,
Que apesar de lidas no fim, nem a dor acalma.

E agora Mãe, que partindo tu, aqui fiquei,
Chorando o que a má sorte a ti te deu,
Sobra a dor que enquanto viva partilhei,
E que agora só, toda minha a sinto eu.
Sabe tu que outra coisa então não me dei,
Que amar apenas quem amou o que é meu;
Descansa nos braços que te acolheram,
Morram e pereçam quantos mal te fizeram.

Há na vida gente, que pouco imagina,
O que alguns por cá sofrem realmente,
Que chegam a julgar que é mera sina,
Dos que na alma, grande dor já sente,
Oh santa fé, que tanta gente má mina,
Em jeito de coisa boa, tão hábil e vilmente,
Acossando qual bando vil de hienas,
Quem já na vida tem de sobra tantas penas.
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Natalina Gonçalves (minha Mãe) faleceu em 4-Jan-2007 às 00h45 nos meus braços, após uma vida de sofrimento. Fui o seu único suporte a apoio constantes e única companhia nos seus últimos anos e momentos de vida, enquanto outros se atiravam a ela como hienas acossando a vítima, que saberiam enfraquecida se não fosse a força da dignidade.
Eu mesmo a deitei e transportei no seu último leito (urna), cobrindo-a integralmente com 77 rosas de chá (as suas preferidas), tantos quantos os seus anos de vida. Nas mãos levou um ramos de rosas brancas, o último que recebera horas antes de outra "Mãe", a que juntei a impressão do texto que lhe dediquei e que consta no blog "Sombra do Deserto", escrito poucos momentos após o seu último suspiro.
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Com ela, partiu também uma parte de mim. Comigo ficou a saudade Dela para sempre.
Repouse em Paz Profunda, lá no lugar onde estão todas as Mães.
Este texto relata aquele que foi o último dia que juntos partilhámos.
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Fica igualmente aqui o testemunho do eterno agradecimento meu e Dela, aos que nos ajudaram e apoiaram, antes, durante e depois, em tantos momentos, muitos deles de franco desespero, onde só a consciência do dever e da razão se converteram na única força que permitiu resistir de consciência tranquila e de cabeça erguida. Assim foi e será sempre.

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Só ... uma Noite de Natal

O cansaço dos preparativos de Natal já pesava quando as primeiras visitas começaram a chegar e à medida que chegavam, as prendas iam-se acumulando junto à árvore de Natal que ia aumentando de brilho ao som dos risos e das gargalhadas que perfumavam o ar.

Chegaram os pais que se juntavam aos tios no momento da chegada, acolhidos na corrida de braços abertos pelo neto e sobrinho que via de novo os avós paternos junto aos maternos que já os aguardavam. A lareira fazia coro ao conjunto, com o crepitar da madeira incandescente em chamas ondulantes de um calor envolvente.
Em seguida, cunhados e sobrinho juntavam-se-lhes trazendo consigo, tios e até o pequeno Ruca marcava presença em latidos e patas levantadas implorando pela atenção cuidada.

Na mesa que crescera ao longo da sala, os pratos e talheres iam sendo colocados ao ritmos das músicas natalícias que se repetiam sempre diferentes quando mais alguém chegava, e havia sempre mais alguém para chegar, ao sabor das recordações.

O bacalhau cozido exigiu a tradição junto com o polvo cozido e mais tarde o Perú recheado foi trinchado logo após o caldo de camarão, especialidade que nem pai nem filho dispensavam à mãe deste. Doces e bebidas completavam o conjunto e os elogios eram mais acesos quando se servia a aletria e as fatias douradas, quase sempre guardadas para o brinde da meia-noite feito com aniz e vinho do Porto, celebrando o início do 78º aniversário da mãe que devia o seu nome ao dia que ora começava.
Em diálogos e conversas, as piadas e anedotas mostravam o quanto comidos e bebidos estavam, condimentados pelos risos e sorrisos que em coros espontaneamente enchiam o ar.
No momento da abertura das prendas, os olhos vivos e despertos do pequeno Rui mostravam-se tão inquietos quanto as suas mãozitas no rasgar ávido do papel de embrulho, em busca de pequenos tesouros que a sua imaginação já buscara e tentara adivinhar na forma e volume dos embrulhos.

Já tardiamente, o cansaço e o espírito saciado pela felicidade e a presença dos que o coração reclamara, o sono ia tomando conta do corpo e já a alma cedera à vontade de adormecer para que assim, fosse legitimado o sonho que por momentos vivera acordado, antes da consciência do silêncio que reinava e do único talher que na verdade existia sobre a mesa junto das fotografias que cuidadosamente colocara diante de si por companhia.
Em seguida, já deposta a aliança sagrada, lançar-se-ia na noite na visita aos que amava dando um pouco de si a cada um, qual Pai Natal sem poder chegar a todos.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

O milagre da rosa


O olhar atravessava a vidraça, uma vidraça invisível que só o tempo e a distância os separavam.
Vira um sem número de vezes aquele homem, sentado, olhando o jardim, com um silêncio quase ensurdecedor. O seu olhar era atento, tão atento que tomava no centro, tudo quanto alcançava na periferia e quando a olhava nos olhos, o silêncio tomava a forma das palavras que nenhum dos dois ousava dizer.
Periodicamente, com a cadência da vida aquele homem voltava ao mesmo lugar, como se viesse para alimentar a alma com tudo quanto via. Tinha fome daquela beleza toda que aquele jardim lhe oferecia. Já não era só o corpo quem lho pedia, era também a alma que lho exigia.
Trazia com ele, sempre o mesmo sorriso branco de aragem, que não se sabe ler excepto quando se sente o aroma de rosas, vindo da que elegantemente ele cuidava e tomara como sua, até ao momento que aguardava para falar uma linguagem que já não recordava.
Tantas as vezes que ela vira aquele homem, como se esperasse por algo ou alguém, que não aparecera durante anos e por quem aprendera a esperar com o tempo ao lado.

Nesse dia ela iria mudar tudo. Iria ver o mesmo jardim com os olhos dele e decidida, iriam partilhar o pão que nesse dia ela cozesse, como se procurasse com isso, saciar uma ausência que já não queria.
Firme, aproximou-se dele em silêncio e apontou-lhe generosa, o caminho que ambos percorreram até à porta da casa onde lhe serviria do mesmo que ela comesse ou bebesse, no mais genuíno gesto que conhecera de dádiva.

Já de saída, enquanto uma das mãos, lenta, parecia pentear com os dedos os cabelos dela, com a outra deixava-lhe o seu único bem, a sua rosa, que do tom pérola tomara agora a cor dos lábios.
Ela, das mãos, por destino daria àquela rosa a jarra mais transparente que ela conhecia, e que viria a revelar-se ser a escolha justa, pelos dias que a mesma duraria, majestosa e graciosa, preservando o aroma, tanto quanto a memória de quem a dera, o permitia.

Já passados os dias que as mãos já não contavam, preparava-se para votar aquela rosa à secagem entre as folhas de um livro, num gesto que apenas reservava para as flores que lhe eram especiais e que queria memorizar nas tábuas do tempo que vivera feliz.
Enquanto tomava nas mãos aquela rosa que se vergava ligeiramente, resignada à poda que a levara até ali, repara que do caule brotavam duas pequenas folhas, dum verde tímido que teimava em fazer viver o milagre que antes parecera não existir mais.
Surpreendida, iria agora levar aquele caule de volta ao jardim, onde com o homem que lha dera, o plantaria onde o sol mais chegasse e o frio poupasse.
Iria ver crescer aquele caule obstinado ao destino e as folhas que o enfeitavam, todos dias através da mesma vidraça, até que já com rosas feitas, o homem entrasse e lhas trouxesse, num novo ciclo de renascimento.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Letras à margem

A maioria de nós recorda os tempos de juventude, quase sempre associados a uma vivência despreocupada e sobretudo, indiferente ao que nos cercava. Políticos, governantes e a actualidade nacional e internacional eram como que uma bolsa de valores e de pessoas algo cinzenta e confusa, como actores de um filme a preto-e-branco que remetíamos impulsivamente para uma indiferença assumida.
Contudo, nem todos somos iguais e assim, alguns de nós observam para onde não olhámos e acabam por ver e surpreender-nos por aquilo em que não reparámos quando estávamos no mesmo lugar ou situação.

O Bernardo Azinheiro é um desses casos. Tem 15 anos e fascina-se nas artes do jornalismo. As letras e palavras saem-lhe das mãos como as notas e acordes de um qualquer instrumento tocado pelo talento e ouvido apurado.
O Bernardo adora ler, livros e jornais, apresentando uma cultura acima da média, que sustenta numa capacidade crítica e de observação que faria inveja a algumas das personagens que frequentemente nos invadem as casas através dos ecrãs de televisão.
Uma das suas paixões é a política e apesar da impulsividade que a idade lhe permite, quase sempre os argumentos da sua avaliação se baseiam numa lógica com nexo e de leitura inteligente e consensual.

Recentemente, brindei o Bernardo Azinheiro, de quem sou admirador confesso, com um blog, o “Letras à margem” (http://www.letrasamargem.blogspot.com/) que ele laboriosa e atentamente vai decorando com textos que nos surpreendem na forma e conteúdo, mas que para os quais, o convite à leitura se justifica plenamente.

Parabéns Bernardo e sabendo que os bons frutos nascem quase sempre de boas árvores, estendo o apreço e admiração a todos de quem herdaste tal dom de aprender a voar na escrita e navegar nas ideias e que por isso, de ti têm motivos de orgulho, como eu tenho de me deixares ser teu amigo.

terça-feira, dezembro 11, 2007

Pai... (16-5-1921 ... 11-12-2004)

Pai,
Onde estás ?
Para quando a nossa primeira conversa ?
Quando me ensinas tudo o que não sei ?
Que faço agora ? Quem me diz ?
Quem me acalma esta dor que não pára e não sei lidar com ela ?

Pai,
Onde estás ?
Porque se tornou silêncio as palavras que não disseste ?
Porque não se ouviram as palavras que eu gritei ?
Porque guardámos o abraço que ninguém viu ?

Pai,
Onde estás ?
Porque não me ensinaste a amar ?
Porque não sei quando me amam e me tatuam a alma ?

Pai,
Onde estás ?
Que faço agora ? Quem me diz ?

Pai,
Onde estás ?
Quem me acalma esta dor que não pára e não sei lidar com ela ?

Pai,
Onde estás ?

Pai,
Perdoa-me se não fui o filho que não desejaste.
Fui afinal, o resultado daquilo que não desejei.

Pai.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Um Luar de líros azuis


Sempre que perdia alguém importante, plantava uma árvore. Assim, voltou a fazê-lo mais uma vez. Desta vez, não na sequência do rito de um funeral em que se tivesse sentido acompanhado, mas numa perda a que o aconchego do choro não fora consentido.

Escolhera na homenagem uma pequena azinheira, árvore que já acolhera desde aparições a pecadores, já alimentara gentes e animais e onde a forma dos seus troncos e ramos recordam os caprichos da vida, serpenteando em direcção ao céu, tomando todo o sol em redor, devolvendo-o na forma de sombra aos que aí se abrigam.

Desde ela e em seu redor, plantara todos os lírios azuis que encontrara, numa despedida que estendera pela planície circundante, até muito mais além dos montes que formavam o horizonte.

Colocara na base uma pequena caixa feita de madeira de acácia, que revestira com um lenço sagrado de seda pura, bordado de cumplicidade, onde guardou um nome, que embrulhara suavemente em sons, sentimentos, abraços, palavras e uma tatuagem que guardara ciosamente para dias festivos que não chegaram, a que juntara uma parte do coração que agora batia em silêncio e que depositava também cerimoniosamente com beijos ternos de despedida.

Sabia assim que a sua árvore não ficaria só e viria todas as noites ao luar, guardá-la enquanto observava as flores do campo, aprendendo com elas a esperança de que o dia seguinte traria de novo o Sol, que ele, também aguardava serenamente enquanto lhe entregava o último abraço numa despedida que não desejara eterna.

quinta-feira, novembro 01, 2007

Dia com os Santos


- Olha, comprei estas flores para a tua mãe. Não sei se tencionas lá ir neste dia, mas caso vás, gostaria de lhas dar. São "rosas de chá" que eram as que ela preferia.
- Se não quiseres, posso deixá-las numa igreja próxima, em memória dela na mesma.

Um ramo cuidado de rosas de cor pérola decorava as mãos finas mas firmes, cuja beleza reflectia a alma e o rosto familiar de quem as trazia, num cuidado suportado pelos inúmeros anos de amizade que foram amadurecendo num carinho e atenção que o tempo desconhece.

- Obrigado, irei sim, agora irei.

A surpresa vinha calma, quase desapercebida, como se o gesto se tivesse tornado de repente tão natural como quem o fazia, como assim se tornara o caminho até onde descansam os que continuam numa falta constante.

Às rosas, juntaram-se cravos vermelhos, as preferidas de meu pai, num pequeno molhe, do qual, um foi retirado simbolicamente para o sepulcro da minha irmã, numa cumplicidade infinita entre os dois, que se estende além da vida.
No local, pessoas, silêncios e choros baixos misturavam-se no aroma das flores como uma dança quase mágica de chamamento às almas e recordações, entre multidões numa feira de caminhos e passos, já conhecidos de cor.

Nas lápides alvas de dignidade, ficaram as flores amparadas em vasos iguais, onde as fotografias procuravam dar faces conhecidas às sepulturas, numa esperança vã de se voltarem a ver.
Ultimas lágrimas ofereceram-se em sacrifício, enquanto as pétalas delas se alimentavam, num último esforço para ganhar a beleza de quem guardavam.

Foi com o mesmo silêncio que o regresso se anunciou, num último olhar, que sob as ordens do anoitecer, uma miríade de pequenas lamparinas emprestavam um sorriso de outras tantas almas, cintilando num jardim de flores.

Às vezes até na morte, também a vida é feita de pequenos gestos que se partilham.

terça-feira, outubro 16, 2007

Ilda: 13 de Junho de 1950 ... 16 de Outubro de 1955


Minha irmã,
Cada dia que passa aproxima-nos mais.
Ensina-me a voar e repousa em Paz Profunda.

sexta-feira, outubro 12, 2007

Quando eu cair


Quando eu cair, quem me ajudará a levantar do chão ?

... provavelmente ninguém ...
... hoje sei que vou cair.

quinta-feira, outubro 11, 2007

Idonea verba


"Deixa o coração seguir à tua frente e procura alcançá-lo" (provérbio árabe)
.
Sentou-se enquanto a Lua rompia no horizonte sobre um Sol que esperou pôr-se em silêncio.
Abriu as asas e lançou-se no espaço à procura da luz que a sombra não deixava ver.
Deixou o coração partir e seguiu-o para que correndo ainda chegasse demasiado tarde onde as palavras já não se ouvem e os olhares estão ausentes.
Na margem uma criança acena ao colo da mãe acompanhando-o com os olhos no vôo alado rumo ao infinito, onde o Oriente o espera com uma nova luz.
É tempo de dormir e os olhos fecham-se no mar enquanto as marés dão à costa um aroma a solidão dos que esperam sós enquanto adormecem.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Em silêncio ...


Não pediu nada. Foi dando e desejando e contudo os lábios mantiveram-se semi-abertos, entre o dizer e o escutar.
Não disse nada. Foi vagueando entre o gostar e o amar e os braços mantiveram-se semi-estendidos, entre o buscar e o abraçar.

Sofreu e chorou quase em silêncio, como se quisesse esconder a ansiedade e o que o coração gritava tão alto, que não era possível abafar.

Os pés, as mãos, a alma e o coração mantiveram-se contudo obstinados e confiantes num mesmo lugar que apenas aos veneráveis está destinado, votados à admiração e graça imensas, com a alma nas mãos num desejo de proximidade dos que se amam diariamente porque não sabem viver sós.
Assim, ficou ali, até que partissem todos e já ninguém era esperado, como o mais dedicado dos profetas na posse de uma imagem sagrada no mais santo dos templos, o da Vida.

terça-feira, outubro 02, 2007

Adeus e obrigado Zé... pela lição


O Zé Carlos era ainda novo e com uma filha, a pequena Catarina da idade do meu filho. Casara-se com a Cristina e com ela se tornou também meu primo por afinidade, aceitando igualmente no coração adoptivo o Gonçalo que o aceitou paternalmente.

Há pouco mais de um mês, a parente inocente dor nas costas transformou-se na denúncia inesperada de uma condenação que não se fez esperar e apressada se revelou em converter uma família feliz, à angústia de um destino adivinhado.

O Zé durante este curto tempo que passou, nunca chegou a perguntar aos médicos qual o destino ou o que o esperava, mantendo teimosamente nos lábios um sorriso brincalhão, que emprestava aos que o rodeavam e tratavam. Impedido de se mexer e na perda galopante das suas faculdades físicas foi repetindo até horas antes do seu último suspiro que não se preocupassem, porque se sentia bem.

Nem as dores, que a morfina já a custo procurava em vão minorar, estiolaram a alma e o espírito com que o Zé se despediu de todos, numa despedida que nos procurou ensinar uma lição que nos custa aprender e hoje, chorando procuramos o conforto que não conseguimos encontrar, na certeza de que todo o tempo é pouco para dedicar aos que amamos.

Adeus Zé e obrigado pela lição.
Repousa em Paz Profunda