quarta-feira, março 19, 2008

Pai, no dia ...


- Pai toma é para ti.
O passo era apressado e as mãos pequeninas traziam dois embrulhos, num cuidado que justificava toda a pressa do mundo. Aqueles pequeninos olhos castanhos ganhavam agora o tamanho da lua e o sorriso que os acompanhava era bálsamo para todas as maleitas do corpo e da alma que assim se juntavam na árdua tarefa de descobrir o que naquelas prendas se adivinhava.

- Ena pá, duas prendas, que bom.
- Sim pai, esta fui eu que fiz na escola e esta fui eu que comprei.
As mãos do pai aplicaram-se no retirar a fita-cola e no abrir o papel de embrulho dobrado com cuidado, enquanto a face do filho denunciava um crescente de inquietação e ansiedade.

- Rasga o papel, pai.
Era a ordem suprema de quem não suporta a espera da surpresa a causar no remate do evento.

- Olha que giro, um coelhinho da Páscoa e está mesmo bem feito.
- Abre a outra também, pai.
A tarefa de abrir o embrulho repete-se, assim como a ansiedade do filho, que não tarda na exigência da pressa de rasgar o papel que divide a surpresa do espanto de a conhecer.

- Olha que bonito baralho de cartas, e tem nas costas o dizer “Pai tu és o meu herói”.
- Sim pai e agora podemos jogar os dois com elas.
- Sim podemos, hoje e sempre.
O momento ia-se consumindo nos dois sorrisos cúmplices que abraços e beijos selavam em segundos de oiro que elevavam quaisquer prendas à condição das mais belas jóias, das que nenhum ourives seria capaz de reproduzir que não fosse somente na condição de Pai.

- E tu pai, que prenda deste ao teu ?
Primeiro fez-se silêncio, depois as palavras foram substituídas por um abraço apertado e um beijo sentido, agora que a alma os emprestava no tempo e no espaço.

sábado, março 08, 2008

Dia Internacional da Mulher


Foste tu quem me agarrou mal nasceu, ainda com a pele imaculada de quem saiu da escuridão e recebeu a luz enquanto te repousaram sobre o peito de tua mãe, onde te aconchegaste no mais sagrado dos colos, imune na condição de Filha.

Foi a ti que dei a mão, quando juntos brincámos nos quintais da inocência enquanto crescíamos, cientes de que nunca seríamos mais velhos que tu, eterna Irmã.

Foi para ti que corri, sempre que o meu coração batia mais forte e de mãos dadas fomos descobrindo o mundo pelas estradas da vida, olhando para tudo o que os nossos corações viam mais além de seres a melhor Amiga.

Foi contigo que descobri que o coração sonha mais alto que os homens e que as mãos se dão num desejo comum, partilhado a dois, quando te tomei nos braços como eterna Namorada.

Foi para ti que em silêncio olhei, no encanto dos sentidos, enquanto bordava momentos de prazer com os teus cabelos de seda e te olhei os olhos numa face de menina, enquanto te chamava de bonita e te tomava no lugar de Esposa.

Foi contigo que contei todos os dia quando a vida me pedia mais do que a alma consentia e as mãos deixaram de estar vazias quando te vi no lugar de Companheira.

Foi a ti que me agarrei mal nasci, ainda com a pele imaculada de quem saiu da escuridão e recebeu a luz que encontrei no teu sorriso enquanto me repousaram sobre o teu peito, onde me aconcheguei no mais sagrado dos colos, o de Mãe.

Seja a ti quem os meus olhos por último vejam quando se fecharem, como foi no princípio do meu ser e o meu templo sagrado se eleve aos deuses, quão sagrada és Mulher.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

O diamante vermelho


No reino de Philia reinava uma harmonia rara, guardada zelosamente por deuses e guardiões dos templos numa convivência tranquila marcada pelo ritmo da sucessão dos dias soalheiros doirados e das noites de um luar prateado ameno.
Seguindo tradições ancestrais, a princesa Philumenae fora confiada pelos deuses ao Guardião do Templo sagrado do Destino, até que fosse chegada a hora achada por aqueles, para que tomasse o seu lugar entre iguais na corte, a que pertenceria até à eternidade. Para isso, fora instruída pelo Guardião do templo para que nunca se aventurasse além dos limites do templo, onde começavam os domínios profanos, pertencentes ao reino de Jahelus, conhecido e acusado de seduzir belas jovens, tornando-as suas escravas, retirando-lhes todo o conhecimento e consciência.
Assim, Philumenae passeava-se dentro dos limites do templo, sem que porém, deixasse de observar com curiosidade todo o espaço que se lhe apresentava diante onde desejava poder correr livremente, mesmo que isso contrariasse as indicações que recebera, tanto mais que nada nem ninguém parecia estar por perto.
Dia após dia a tentação crescera até que esta tomou o lugar da obediência assumida antes e assim Philumenae decidiu correr livremente, nem que fosse por uma única vez, pois que não vendo ninguém, nada de mal lhe aconteceria.
De volta ao templo o caminho de regresso ficou assinalado pelos passos dados por Philumenae, gravados nas pegadas deixadas no pavimento de pedra pela terra vermelha que agora teimosamente lhe cobria os pés denunciando o terreno que pisara.
Furioso e antecipando o castigo que o esperava da parte dos deuses, pela não observância da tradição, o Guardião do templo, desesperado ordena o degredo da jovem princesa para o deserto nos confins do reino de Philia, onde deveria permanecer até encontrar coisa ou bem que pudesse pagar pela falta cometida e aplacasse a ira dos deuses.
Triste e desiludida, Philumenae foi conduzida ao deserto, onde durante anos iria procurar algo que por grande valor, só poderia ter o valor da mais preciosa das joias.

Entretanto, a busca constante de anos a fio, crestara-lhe a pele e na face duas linhas brancas testemunhavam o rasto do sal de lágrimas há muito choradas, enquanto o tempo desenhava-lhe caprichos na forma de rugas que lhe tomavam de assalto a beleza pela qual antes já fora conhecida e admirada por todos os que a viam.
Todas as noites, quando cansada se abandonava ao sono sobre a esteira que lhe servia de leito, Philumenae tinha o mesmo sonho em que uma voz lhe dizia “busca perto a jóia mais valiosa”. Assim, todos os dias , buscava sem cessar qualquer jóia que se afigurasse de grande valor, embora apenas encontrasse pequenos fragmentos de vidro, aparentemente pertencentes a um espelho antigo que alguém atirara fora quando se partiu.
Passado muito tempo e desiludida com a falta de resultado das buscas, decidiu apresentar-se resignada ao Guardião do templo, para que lhe aplicasse o castigo capital, pois nada encontrara de valor, que não fossem apenas os fragmentos de um espelho velho e sem utilidade.

Assim, dirigiu-se ao Templo do Destino para se submeter à vontade do Guardião entregando-lhe apenas o velho espelho partido, esperando o castigo que decerto lhe seria fatal. O Guardião pegou no espelho estilhaçado e com relutância pediu a Philumenae que o olhasse na busca de alguma utilidade. Philumenae assim fez num gesto resignado, acompanhado pelo desdém do Guardião que adivinhava a resposta que justificasse o castigo que lhe premeditara.

Todavia, ao olhar da princesa no espelho quebrado em mil pedaços e para espanto desta, as rugas da sua pele tomavam agora o aspecto de pequenas faces lapidadas e a sua pele ganhara uma tonalidade enrubescida com reflexos rubros e os olhos soltavam um brilho quase incandescente, enquanto os cabelos retomavam a cor de azeitona escuro de outrora. Procurando rever-se no espelho, não via agora as fracturas dos fragmentos do mesmo que encontrara, em vez disso, via nele o reflexo de si mesma, na mais cobiçada das jóias, ... o diamante vermelho. Reencontrara-se.

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Miminho


Recebi há dias um "prémio" da minha amiga SHA, que com isso, pretende homenagear algumas das pessoas que com ela se relacionam através da blogosfera, nomeadamente na sua componente virtual, onde a Amizade não deixa no entanto, de se poder manifestar em pleno.

Obrigado SHA pelo teu mimo, do qual me encontro infinitamente menos merecedor que tu mesma. Subscrevo completamente os critérios de quem te atribuiu tal distinção, tanto quanto os teus ao reconhecê-la também.
Mimam-me os deuses no carinho e amizade através das pessoas de quem gosto, diante das quais me inclino humildemente no agradecimento ao saber-te igualmente entre elas.

Resolvi no entanto, na habitual continuidade do gesto, ir um pouco mais além na atribuição do mesmo "prémio". Assim, decidi não me limitar na sua atribuição genérica e quase discreta, antes pelo contrário, deixar aqui, de forma delatória o quanto gosto das pessoas visadas, que a vida me deu a conhecer, quer tenham blogs ou que sei acompanharem este blog, nomeadamente e sem qualquer critério que dite a sua ordem de referência. Sei que mais gente me é importante aqui e me perdoem se por esquecido possa ter padecido se for o caso.

Levanto-me e grito bem alto o quanto a amo, naquele Amor que não se sabe definir e que se incorpora no abraço mais fraternal. É a "Mãe" que qualquer um de nós gostaria de ter, sobretudo os que já não a têm e que n'Ela a podem rever ainda que num recolhimento silencioso.
Não posso esquecer o carinho e atenção permanentemente dispensados num sorriso maternal inesquecível, sobretudo nos momentos mais emotivos, aos quais apenas posso responder num beijo filial nas mãos sagradas.
Perdem na virtualidade os blogs a força da comunicação, quando as pessoas se tornam constantemente presentes no pensamento.
Lhe seja grata a vida na alegria, Maat, tanto quanto lhe sou eu no mais puro dos afectos.
Bem haja querida Maat e um muito obrigado por tudo. Deixo-lhe uma rosa.

MARIA DO CÉU (A luz do voo):
Com algumas pessoas não são precisas muitas palavras para as entendermos e sentirmos o calor do entendimento a que nos remetem ao conforto de uma Amizade plena no consentimento quase fraternal.
Não é em vão nem por acaso que a trato em privado por "Irmã", que nessa condição o comportamento e sentimento fraterno a têm assistido a miúde em momentos que a memória não apaga para que nunca deixe eu de saber quem sou.
Te seja amiga a vida Maria do Céu, tanto quanto mostras ser pelos outros.
Bem hajas querida Maria do Céu e um muito obrigado por tudo. Deixo-te uma rosa.

Têm sido os momentos de diálogo, muitas vezes os únicos, que ora em dias alegres de sol fizeram soltar gargalhadas circunstanciais ora em dias mais sombrios se constituíram como abraços na tentativa franca de partilhar os momentos menos bons, mesmo quando o sorriso rompe as barreiras da virtualidade, no testemunho da mais sagrada Amizade a que poucos almejam conseguir corresponder na sua plenitude.
Te seja generosa e justa a vida em tudo o que de bom te guarda, tanto quanto te possam desejar os que mais te querem.
Bem hajas querida SHA e um muito obrigado por tudo. Deixo-te uma rosa.

ANA LUAR (Ana Luar):
A vida coloca-nos por vezes no nosso caminho pessoas, cujas pegadas ficam indelevelmente marcadas qual tatuagem na alma, que assim reforça a intensidade com que a nossa existência é arrebatada no prazer de rir, aprender, descobrir e amar.
Raramente reunem os deuses numa vez só o quanto a maioria de nós queria descobrir ao longo da vida, mesmo que a perfeição e a imperfeição se misturem numa palete de cores, onde a arte humana do sentir se desdobre em sentimentos diversos.
Te seja Ana, justa a vida e os deuses e façam poisar na mão a felicidade que sobre ti paire.
Bem hajas querida Ana Luar e um muito obrigado por tudo. Deixo-te uma rosa.

BERNARDO AZINHEIRO (Letras à margem):
Quando já temos muitos anos, são muitas as vezes que nos questionamos sobre o que gostarímos de fazer se voltássemos atrás no tempo ou sobre o que gostaríamos de ser ou ter sido.
O Bernardo é daqueles adolescentes onde qualquer um de nós gostaria de se rever e que as sortes do destino me colocou na gentileza de uma partilha afectiva que a Amizade testemunha na maior intensidade. Gosto dele, gosto muito dele, não só por quem é, mas sobretudo por aquilo que é, digno de converter qualquer pai ou mãe à mais sincera oração de agradecimento aos deuses.
Te seja gentil a vida Bernardo, no conhecimento e fácil te torne a caminhada para o alcançares.
Bem hajas caro Bernardo e um muito obrigado por tudo. Deixo-te uma rosa.

Quero também homenagear aqueles que apesar de não terem blogs, têm sido igualmente uma razão de todas as palavras ditas, escritas e sentidas, num parto partilhado em leituras atentas, muitas vezes apenas comentadas no recato de conversas pessoais, no conforto que a virtualidade concedeu à vida real, nomeadamente:

CECÍLIA:
Não ficaria completa qualquer oitava sem que todas as notas se pudessem tocar nem qualquer flor se lhe faltasse alguma das pétalas nem qualquer jóia sem a mais preciosa das pedras. Assim é a Cecília para muitos que a rodeiam, seja pela sua força interior, seja pela luz que transmite e que devota numa dádiva constante que a generosidade assumiu como sua imagem característica, fazendo ajelhar deuses e homens, gratos pelos gestos e pelas palavras. A eles me junto na homenagem, como o mais devoto no reconhecimento que muitos anos já conhecem.
Te seja justa a vida em tudo o que de bom te ofereça, que será sempre pouco para para com o merecimento do quanto dás, mesmo em silêncio dos pequenos grandes gestos.
Bem hajas querida Cecília e um muito obrigado por tudo. Deixo-te uma rosa.

ANSELMO:
Frequentemente a Amizade sobrepõe-se irreverente aos graus de parentesco, remetendo-os para um plano menor, quando o bem querer une as pessoas no mais intenso e generoso dos afectos. Assim, ao parentesco de "cunhado", a condição de "Irmão" toma forma em tudo o que me une ao Anselmo, num sentimento a que os anos apenas têm acrescentado a maturidade do tempo, qual o mais frondoso dos carvalhos numa floresta selectiva às gentes que nela ousam entrar num cerimonial iniciático.
Muitas das palavras e sentimentos que constituem este blog, fazem parte do conhecimento que o Anselmo tem de mim, muitas das vezes lidas num silêncio condescendente de quem testemunha uma vida que se desenrola nos mesmos princípios.
Te seja gentil a vida Anselmo, tanto quanto a tua Amizade que quase diariamente testemunho.
Bem hajas caro Anselmo e um muito obrigado por tudo. Deixo-te uma rosa.

Sois todos vós, nas rosas que aqui vos deixo, que constituís o mais belo ramo com que decoro a minha vida junto dos que mais amo na vida, nomeadamente o meu filho e sobrinho, mesmo que venere muitas vezes em silêncio, enquanto inalo o mais sagrado dos perfumes, o da vossa Amizade, a que apenas me posso arrogar de tentar ombrear no mais sincero reconhecimento.
Bem hajam e um obrigado por tudo.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Entrudo dos sentidos


O batuque dos tambores transporta-me como uma folha levada pelo vento criado pelo arfar dos cantares acesos pela festa pagã que nos leva na levada do tempo.

Num silêncio quase cerimonial, onde só o silvo suave da respiração invade profano este espaço, a pele toma nova forma, vestindo-se para um novo desfile.
Os braços espreguiçam-se e adaptam-se a uma nova condição, onde as mãos estão mais longe e o céu se tornou o limite do imaginário.
As pernas desconhecem agora o chão e acompanham o vôo na sensação de estar ausente diante de todas as sombras que testemunham a dança anónima dos sentidos.

Completa-se a mutação dos seres, com a máscara que agora ponho decorada com um olhar alheio e o sorriso toma a forma de uma barca que navega numa satisfação cuidada, adornada pelos cabelos que descaiem em manto de rainha sobre a alma que coloquei como penhor de mim.

Não sei quem sou agora e os demais não me vêem, porque estou ausente. Vesti-me de ti.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Insanidade profana


Pé ante pé, sigo no meio da estrada num passo apressado, ao desafio do trânsito que me passa ao lado, num vai e vem que me roça as roupagens e a alma. O dia veste-se de azul manchado de branco e cinzento, qual descuido de pintor a quem o tempo não se emprestou para acabar a obra celeste.

O pavimento troça do sol, com um irreverente tom escuro, ao longo do caminho que se estreita na razão inversa da proximidade, terminando ao longe num traço fino de cabelo, entre a cabeleira farta do horizonte que teima no olhar complacente dos que passam adiante.

Refreio de repente, quase esbarrando numa criança que se atravessa no caminho, montada numa bicicleta a que falta uma roda e em que o guiador resultou dum bordão arrebatado a um profeta que desistira de caminhar ali perto, onde os homens e mulheres se tornam iguais.

Retomo o caminho, agora ziguezaguiando entre peregrinos que seguem em sentido contrário, em direcção a uma catedral onde não me deixo entrar, enquanto santos abandonam os altares e agora se sentam como pecadores no primeiro degrau do altar-mor, orando na humildade dos sentidos.

Começou a chover uma chuva miudinha, numa bênção generalizada, levada a cabo pelas mãos de uma tempestade paramentada de relâmpagos, a que se juntaram freiras e cardeais num concílio escrito no chão, por onde caminham infiéis devotos de braços abertos numa histeria colectiva porque o sol nasceu da noite.

Baixo-me num último segundo, escapando por tempos imemoriais dos abutres que fazem vôo raso por sobre as cabeças rapadas de sentimentos, alheias aos cânticos que se fazem soar numa ruela que se apresenta ortogonal à direcção por onde já ninguém se vê caminhar a horas vagas.

Quase chegado ao fim do espaço que a vista alcança, uma criança sentou-se na beira da calçada, de braço estendido, aproveitando o momento de oração profana para mitigar a fome colectiva com nacos de hóstias consagradas aos deuses primordiais. Vejo-lhe os olhos pintados de dourado, da cor dos cabelos e da talha do oratório onde pregou a cruz que lançou aos olhares das multidões que a ignoram.

No banco de um jardim do lado onde o sol se põe, jaz uma mulher cansada de abortar os gritos que lhe magoam o corpo, que amordaçou com uma longa tira de pano tingido de uma cor púrpura que a chuva tingiu com os pecados dos que a condenam num coro arrebatado pelo silêncio cúmplice da bênção papal.

A chuva deu agora lugar a vagas de vento e granizo, com as quais rodopio numa dança louca, esquecendo-me de quem sou. Beatas clamam-me pela santidade arremessando crucifixos que as mãos dos crentes recolhem avidamente numa injúria satânica a que me remetem in extremis.

Chegado ao fim da rua, esta denuncia-se numa pista traçada sobre o vinil pintado com a cor da minha sombra, onde me revejo na etiqueta que ostenta o meu olhar sobre um disco que mãos secretas fazem rodar ao sabor dos tempos.

Aproxima-se derradeiro um homem curvado pelo esquecimento, amparado pela mãe que lhe toma o pulso, escrevendo sermões num sorriso emprestado por anjos esvoaçando em redor num bailado de andorinha.
Abraçam-me numa redenção à loucura que bebia a tragos curtos pelo cálice sagrado da inocência.

Por fim, julgara-me homem entre deuses, qual Deus entre os homens de regresso ao passado em que voltara de novo ao princípio do caminho que acabara de percorrer em busca da fé.

domingo, janeiro 13, 2008

O último quadro


A tampa do baú abriu-se renitente, exaltando as dobradiças a soltar um gemido que denunciou a tentativa de recordar o passado.
Entre memórias velhas, encontrara imagens e escritos a que o pó não se agarrara, por respeito ao tempo que já passado, se encontrava tão presente como o dia anterior.

Havia decidido dar-se na forma e jeito das imagens de antanho a que dedicara a arte e o engenho. Tomara-os como o que de mais precioso guardava como oferta primordial, reservada aos altares do pensamento, onde se despia de si mesmo para dar lugar aos outros que lhe eram especiais.
Pegara nos desenhos e poemas que tinha feito em momentos de loucura, à mingua de um pouco da felicidade que encontrara apenas no final de cada realização. Pegou em cada um deles e vestiu-os do sentimento de cada pessoa que quisera ali com ele e naquele momento, numa moldura que os juntasse sempre e a todos, como numa última ceia, onde se vestissem de apóstolos sem qualquer Deus mais alto que o mais humilde dos presentes.
Prontas as ofertas, foi-se distribuindo a ele mesmo pelos demais, num gesto e dádiva diferentes em cada rosto que buscara, num cerimonial único de entrega, onde apesar de tudo, via-se saindo mais enriquecido no vazio que lhe restava.

Finda a caminhada e não encontrando mais ninguém, havia ainda um quadro que sobrava na ausência dos que lhe faltavam. Dura era sempre a falta, mesmo que precária pela distância, fosse do tempo ou do espaço. Não poderia assim, ofertar de si, nada que fosse material, condição imposta que assim seria a contento de quem a quem quisera fazer homenagem.
Vencido agora pela distância, mais do que pelo intento, inconformou-se pelo caminho que percorrera e seguindo, mais só e mais além, da margem atirou ao rio aquela que era a sua última obra.

De ora em diante, diriam os pescadores, que em noites de lua cheia, seriam encantados pelo olhar de menina, numa mulher de face de porcelana emoldurada por longos cabelos de seda. Emergia esta, das águas que a viram nascer, carregando nas mãos um quadro pintado da cor da noite, trauteando uma canção suave de embalar.
A tampa do baú fechava-se agora condescendente, acompanhando as dobradiças oleadas pelo silêncio com que iam guardando o presente.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Minha Mãe ... o último dia (25-12-1929 ... 4-1-2007)


Disfarçava o sol numa manhã clara,
No caminho diário que tanto conhecera,
Já ao coração também a alma se juntara,
Na angústia que seguir, a vontade amolecera.
Era o chamamento que adivinhara,
Chegado o dia que o Amor tanto já temera.
Mudando de rumo, junto d’Ela a ida se fez,
Sendo ele o derradeiro, e último de vez.

Ainda consciente, as palavras quais sinos,
Anunciaram na manhã a presença desejada;
Era primeiro o Filho antes de outros peregrinos,
Uns por Amor e outra de consciência pesada.
Veio a tarde e já dormindo a vimos,
Num descanso crescente que a vida abandonava,
Via-se cumprir o destino de quem tanto amou,
Que um arco-íris com rosas brancas anunciou.

Veio a noite fechar o último dia,
Enquanto outro rápido já se viu;
Cessam por fim o olhar e a vida com o dia,
Que agora acabou e já partiu.
Enquanto a tomei junto ao peito que doia,
Chorando juntos o que já só um de nós sentiu,
Parou calmamente de respirar em sono manso,
Juntando-se a pais, filha e esposo, no descanso.

Dorme eternamente no ataúde sagrado,
Tu que tomando nos braços eu lá te deitei,
Assim mais ninguém te haverá tocado,
Nem às rosas que nas mãos te coloquei,
E outras de chá que te cobriram o corpo deitado,
Tantas quantos os anos conhecidos te sei.
Juntei-lhes ainda as palavras que li na alma,
Que apesar de lidas no fim, nem a dor acalma.

E agora Mãe, que partindo tu, aqui fiquei,
Chorando o que a má sorte a ti te deu,
Sobra a dor que enquanto viva partilhei,
E que agora só, toda minha a sinto eu.
Sabe tu que outra coisa então não me dei,
Que amar apenas quem amou o que é meu;
Descansa nos braços que te acolheram,
Morram e pereçam quantos mal te fizeram.

Há na vida gente, que pouco imagina,
O que alguns por cá sofrem realmente,
Que chegam a julgar que é mera sina,
Dos que na alma, grande dor já sente,
Oh santa fé, que tanta gente má mina,
Em jeito de coisa boa, tão hábil e vilmente,
Acossando qual bando vil de hienas,
Quem já na vida tem de sobra tantas penas.
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Natalina Gonçalves (minha Mãe) faleceu em 4-Jan-2007 às 00h45 nos meus braços, após uma vida de sofrimento. Fui o seu único suporte a apoio constantes e única companhia nos seus últimos anos e momentos de vida, enquanto outros se atiravam a ela como hienas acossando a vítima, que saberiam enfraquecida se não fosse a força da dignidade.
Eu mesmo a deitei e transportei no seu último leito (urna), cobrindo-a integralmente com 77 rosas de chá (as suas preferidas), tantos quantos os seus anos de vida. Nas mãos levou um ramos de rosas brancas, o último que recebera horas antes de outra "Mãe", a que juntei a impressão do texto que lhe dediquei e que consta no blog "Sombra do Deserto", escrito poucos momentos após o seu último suspiro.
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Com ela, partiu também uma parte de mim. Comigo ficou a saudade Dela para sempre.
Repouse em Paz Profunda, lá no lugar onde estão todas as Mães.
Este texto relata aquele que foi o último dia que juntos partilhámos.
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Fica igualmente aqui o testemunho do eterno agradecimento meu e Dela, aos que nos ajudaram e apoiaram, antes, durante e depois, em tantos momentos, muitos deles de franco desespero, onde só a consciência do dever e da razão se converteram na única força que permitiu resistir de consciência tranquila e de cabeça erguida. Assim foi e será sempre.

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Só ... uma Noite de Natal

O cansaço dos preparativos de Natal já pesava quando as primeiras visitas começaram a chegar e à medida que chegavam, as prendas iam-se acumulando junto à árvore de Natal que ia aumentando de brilho ao som dos risos e das gargalhadas que perfumavam o ar.

Chegaram os pais que se juntavam aos tios no momento da chegada, acolhidos na corrida de braços abertos pelo neto e sobrinho que via de novo os avós paternos junto aos maternos que já os aguardavam. A lareira fazia coro ao conjunto, com o crepitar da madeira incandescente em chamas ondulantes de um calor envolvente.
Em seguida, cunhados e sobrinho juntavam-se-lhes trazendo consigo, tios e até o pequeno Ruca marcava presença em latidos e patas levantadas implorando pela atenção cuidada.

Na mesa que crescera ao longo da sala, os pratos e talheres iam sendo colocados ao ritmos das músicas natalícias que se repetiam sempre diferentes quando mais alguém chegava, e havia sempre mais alguém para chegar, ao sabor das recordações.

O bacalhau cozido exigiu a tradição junto com o polvo cozido e mais tarde o Perú recheado foi trinchado logo após o caldo de camarão, especialidade que nem pai nem filho dispensavam à mãe deste. Doces e bebidas completavam o conjunto e os elogios eram mais acesos quando se servia a aletria e as fatias douradas, quase sempre guardadas para o brinde da meia-noite feito com aniz e vinho do Porto, celebrando o início do 78º aniversário da mãe que devia o seu nome ao dia que ora começava.
Em diálogos e conversas, as piadas e anedotas mostravam o quanto comidos e bebidos estavam, condimentados pelos risos e sorrisos que em coros espontaneamente enchiam o ar.
No momento da abertura das prendas, os olhos vivos e despertos do pequeno Rui mostravam-se tão inquietos quanto as suas mãozitas no rasgar ávido do papel de embrulho, em busca de pequenos tesouros que a sua imaginação já buscara e tentara adivinhar na forma e volume dos embrulhos.

Já tardiamente, o cansaço e o espírito saciado pela felicidade e a presença dos que o coração reclamara, o sono ia tomando conta do corpo e já a alma cedera à vontade de adormecer para que assim, fosse legitimado o sonho que por momentos vivera acordado, antes da consciência do silêncio que reinava e do único talher que na verdade existia sobre a mesa junto das fotografias que cuidadosamente colocara diante de si por companhia.
Em seguida, já deposta a aliança sagrada, lançar-se-ia na noite na visita aos que amava dando um pouco de si a cada um, qual Pai Natal sem poder chegar a todos.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

O milagre da rosa


O olhar atravessava a vidraça, uma vidraça invisível que só o tempo e a distância os separavam.
Vira um sem número de vezes aquele homem, sentado, olhando o jardim, com um silêncio quase ensurdecedor. O seu olhar era atento, tão atento que tomava no centro, tudo quanto alcançava na periferia e quando a olhava nos olhos, o silêncio tomava a forma das palavras que nenhum dos dois ousava dizer.
Periodicamente, com a cadência da vida aquele homem voltava ao mesmo lugar, como se viesse para alimentar a alma com tudo quanto via. Tinha fome daquela beleza toda que aquele jardim lhe oferecia. Já não era só o corpo quem lho pedia, era também a alma que lho exigia.
Trazia com ele, sempre o mesmo sorriso branco de aragem, que não se sabe ler excepto quando se sente o aroma de rosas, vindo da que elegantemente ele cuidava e tomara como sua, até ao momento que aguardava para falar uma linguagem que já não recordava.
Tantas as vezes que ela vira aquele homem, como se esperasse por algo ou alguém, que não aparecera durante anos e por quem aprendera a esperar com o tempo ao lado.

Nesse dia ela iria mudar tudo. Iria ver o mesmo jardim com os olhos dele e decidida, iriam partilhar o pão que nesse dia ela cozesse, como se procurasse com isso, saciar uma ausência que já não queria.
Firme, aproximou-se dele em silêncio e apontou-lhe generosa, o caminho que ambos percorreram até à porta da casa onde lhe serviria do mesmo que ela comesse ou bebesse, no mais genuíno gesto que conhecera de dádiva.

Já de saída, enquanto uma das mãos, lenta, parecia pentear com os dedos os cabelos dela, com a outra deixava-lhe o seu único bem, a sua rosa, que do tom pérola tomara agora a cor dos lábios.
Ela, das mãos, por destino daria àquela rosa a jarra mais transparente que ela conhecia, e que viria a revelar-se ser a escolha justa, pelos dias que a mesma duraria, majestosa e graciosa, preservando o aroma, tanto quanto a memória de quem a dera, o permitia.

Já passados os dias que as mãos já não contavam, preparava-se para votar aquela rosa à secagem entre as folhas de um livro, num gesto que apenas reservava para as flores que lhe eram especiais e que queria memorizar nas tábuas do tempo que vivera feliz.
Enquanto tomava nas mãos aquela rosa que se vergava ligeiramente, resignada à poda que a levara até ali, repara que do caule brotavam duas pequenas folhas, dum verde tímido que teimava em fazer viver o milagre que antes parecera não existir mais.
Surpreendida, iria agora levar aquele caule de volta ao jardim, onde com o homem que lha dera, o plantaria onde o sol mais chegasse e o frio poupasse.
Iria ver crescer aquele caule obstinado ao destino e as folhas que o enfeitavam, todos dias através da mesma vidraça, até que já com rosas feitas, o homem entrasse e lhas trouxesse, num novo ciclo de renascimento.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Letras à margem

A maioria de nós recorda os tempos de juventude, quase sempre associados a uma vivência despreocupada e sobretudo, indiferente ao que nos cercava. Políticos, governantes e a actualidade nacional e internacional eram como que uma bolsa de valores e de pessoas algo cinzenta e confusa, como actores de um filme a preto-e-branco que remetíamos impulsivamente para uma indiferença assumida.
Contudo, nem todos somos iguais e assim, alguns de nós observam para onde não olhámos e acabam por ver e surpreender-nos por aquilo em que não reparámos quando estávamos no mesmo lugar ou situação.

O Bernardo Azinheiro é um desses casos. Tem 15 anos e fascina-se nas artes do jornalismo. As letras e palavras saem-lhe das mãos como as notas e acordes de um qualquer instrumento tocado pelo talento e ouvido apurado.
O Bernardo adora ler, livros e jornais, apresentando uma cultura acima da média, que sustenta numa capacidade crítica e de observação que faria inveja a algumas das personagens que frequentemente nos invadem as casas através dos ecrãs de televisão.
Uma das suas paixões é a política e apesar da impulsividade que a idade lhe permite, quase sempre os argumentos da sua avaliação se baseiam numa lógica com nexo e de leitura inteligente e consensual.

Recentemente, brindei o Bernardo Azinheiro, de quem sou admirador confesso, com um blog, o “Letras à margem” (http://www.letrasamargem.blogspot.com/) que ele laboriosa e atentamente vai decorando com textos que nos surpreendem na forma e conteúdo, mas que para os quais, o convite à leitura se justifica plenamente.

Parabéns Bernardo e sabendo que os bons frutos nascem quase sempre de boas árvores, estendo o apreço e admiração a todos de quem herdaste tal dom de aprender a voar na escrita e navegar nas ideias e que por isso, de ti têm motivos de orgulho, como eu tenho de me deixares ser teu amigo.

terça-feira, dezembro 11, 2007

Pai... (16-5-1921 ... 11-12-2004)

Pai,
Onde estás ?
Para quando a nossa primeira conversa ?
Quando me ensinas tudo o que não sei ?
Que faço agora ? Quem me diz ?
Quem me acalma esta dor que não pára e não sei lidar com ela ?

Pai,
Onde estás ?
Porque se tornou silêncio as palavras que não disseste ?
Porque não se ouviram as palavras que eu gritei ?
Porque guardámos o abraço que ninguém viu ?

Pai,
Onde estás ?
Porque não me ensinaste a amar ?
Porque não sei quando me amam e me tatuam a alma ?

Pai,
Onde estás ?
Que faço agora ? Quem me diz ?

Pai,
Onde estás ?
Quem me acalma esta dor que não pára e não sei lidar com ela ?

Pai,
Onde estás ?

Pai,
Perdoa-me se não fui o filho que não desejaste.
Fui afinal, o resultado daquilo que não desejei.

Pai.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Um Luar de líros azuis


Sempre que perdia alguém importante, plantava uma árvore. Assim, voltou a fazê-lo mais uma vez. Desta vez, não na sequência do rito de um funeral em que se tivesse sentido acompanhado, mas numa perda a que o aconchego do choro não fora consentido.

Escolhera na homenagem uma pequena azinheira, árvore que já acolhera desde aparições a pecadores, já alimentara gentes e animais e onde a forma dos seus troncos e ramos recordam os caprichos da vida, serpenteando em direcção ao céu, tomando todo o sol em redor, devolvendo-o na forma de sombra aos que aí se abrigam.

Desde ela e em seu redor, plantara todos os lírios azuis que encontrara, numa despedida que estendera pela planície circundante, até muito mais além dos montes que formavam o horizonte.

Colocara na base uma pequena caixa feita de madeira de acácia, que revestira com um lenço sagrado de seda pura, bordado de cumplicidade, onde guardou um nome, que embrulhara suavemente em sons, sentimentos, abraços, palavras e uma tatuagem que guardara ciosamente para dias festivos que não chegaram, a que juntara uma parte do coração que agora batia em silêncio e que depositava também cerimoniosamente com beijos ternos de despedida.

Sabia assim que a sua árvore não ficaria só e viria todas as noites ao luar, guardá-la enquanto observava as flores do campo, aprendendo com elas a esperança de que o dia seguinte traria de novo o Sol, que ele, também aguardava serenamente enquanto lhe entregava o último abraço numa despedida que não desejara eterna.

quinta-feira, novembro 01, 2007

Dia com os Santos


- Olha, comprei estas flores para a tua mãe. Não sei se tencionas lá ir neste dia, mas caso vás, gostaria de lhas dar. São "rosas de chá" que eram as que ela preferia.
- Se não quiseres, posso deixá-las numa igreja próxima, em memória dela na mesma.

Um ramo cuidado de rosas de cor pérola decorava as mãos finas mas firmes, cuja beleza reflectia a alma e o rosto familiar de quem as trazia, num cuidado suportado pelos inúmeros anos de amizade que foram amadurecendo num carinho e atenção que o tempo desconhece.

- Obrigado, irei sim, agora irei.

A surpresa vinha calma, quase desapercebida, como se o gesto se tivesse tornado de repente tão natural como quem o fazia, como assim se tornara o caminho até onde descansam os que continuam numa falta constante.

Às rosas, juntaram-se cravos vermelhos, as preferidas de meu pai, num pequeno molhe, do qual, um foi retirado simbolicamente para o sepulcro da minha irmã, numa cumplicidade infinita entre os dois, que se estende além da vida.
No local, pessoas, silêncios e choros baixos misturavam-se no aroma das flores como uma dança quase mágica de chamamento às almas e recordações, entre multidões numa feira de caminhos e passos, já conhecidos de cor.

Nas lápides alvas de dignidade, ficaram as flores amparadas em vasos iguais, onde as fotografias procuravam dar faces conhecidas às sepulturas, numa esperança vã de se voltarem a ver.
Ultimas lágrimas ofereceram-se em sacrifício, enquanto as pétalas delas se alimentavam, num último esforço para ganhar a beleza de quem guardavam.

Foi com o mesmo silêncio que o regresso se anunciou, num último olhar, que sob as ordens do anoitecer, uma miríade de pequenas lamparinas emprestavam um sorriso de outras tantas almas, cintilando num jardim de flores.

Às vezes até na morte, também a vida é feita de pequenos gestos que se partilham.

terça-feira, outubro 16, 2007

Ilda: 13 de Junho de 1950 ... 16 de Outubro de 1955


Minha irmã,
Cada dia que passa aproxima-nos mais.
Ensina-me a voar e repousa em Paz Profunda.

sexta-feira, outubro 12, 2007

Quando eu cair


Quando eu cair, quem me ajudará a levantar do chão ?

... provavelmente ninguém ...
... hoje sei que vou cair.

quinta-feira, outubro 11, 2007

Idonea verba


"Deixa o coração seguir à tua frente e procura alcançá-lo" (provérbio árabe)
.
Sentou-se enquanto a Lua rompia no horizonte sobre um Sol que esperou pôr-se em silêncio.
Abriu as asas e lançou-se no espaço à procura da luz que a sombra não deixava ver.
Deixou o coração partir e seguiu-o para que correndo ainda chegasse demasiado tarde onde as palavras já não se ouvem e os olhares estão ausentes.
Na margem uma criança acena ao colo da mãe acompanhando-o com os olhos no vôo alado rumo ao infinito, onde o Oriente o espera com uma nova luz.
É tempo de dormir e os olhos fecham-se no mar enquanto as marés dão à costa um aroma a solidão dos que esperam sós enquanto adormecem.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Em silêncio ...


Não pediu nada. Foi dando e desejando e contudo os lábios mantiveram-se semi-abertos, entre o dizer e o escutar.
Não disse nada. Foi vagueando entre o gostar e o amar e os braços mantiveram-se semi-estendidos, entre o buscar e o abraçar.

Sofreu e chorou quase em silêncio, como se quisesse esconder a ansiedade e o que o coração gritava tão alto, que não era possível abafar.

Os pés, as mãos, a alma e o coração mantiveram-se contudo obstinados e confiantes num mesmo lugar que apenas aos veneráveis está destinado, votados à admiração e graça imensas, com a alma nas mãos num desejo de proximidade dos que se amam diariamente porque não sabem viver sós.
Assim, ficou ali, até que partissem todos e já ninguém era esperado, como o mais dedicado dos profetas na posse de uma imagem sagrada no mais santo dos templos, o da Vida.

terça-feira, outubro 02, 2007

Adeus e obrigado Zé... pela lição


O Zé Carlos era ainda novo e com uma filha, a pequena Catarina da idade do meu filho. Casara-se com a Cristina e com ela se tornou também meu primo por afinidade, aceitando igualmente no coração adoptivo o Gonçalo que o aceitou paternalmente.

Há pouco mais de um mês, a parente inocente dor nas costas transformou-se na denúncia inesperada de uma condenação que não se fez esperar e apressada se revelou em converter uma família feliz, à angústia de um destino adivinhado.

O Zé durante este curto tempo que passou, nunca chegou a perguntar aos médicos qual o destino ou o que o esperava, mantendo teimosamente nos lábios um sorriso brincalhão, que emprestava aos que o rodeavam e tratavam. Impedido de se mexer e na perda galopante das suas faculdades físicas foi repetindo até horas antes do seu último suspiro que não se preocupassem, porque se sentia bem.

Nem as dores, que a morfina já a custo procurava em vão minorar, estiolaram a alma e o espírito com que o Zé se despediu de todos, numa despedida que nos procurou ensinar uma lição que nos custa aprender e hoje, chorando procuramos o conforto que não conseguimos encontrar, na certeza de que todo o tempo é pouco para dedicar aos que amamos.

Adeus Zé e obrigado pela lição.
Repousa em Paz Profunda

domingo, setembro 23, 2007

Falta-me ...


Falta-me o abraço que guardo na memória e que me arrefece a noite ao adormecer.
Guardo o silêncio onde escrevo as palavras que já não digo.
Fecho-me ao vento que me leva a alma que me resta.
Hoje deixo-me dormir.

terça-feira, agosto 14, 2007

Cadeia de união


O email chegou e depois dele outros mais se seguiram encadeados;
O telefonema chegou e depois deles outros mais se seguiram;
O beijo chegou e depois dele alguns se seguiram;
O abraço chegou e depois dele poucos se seguiram;
...
O telefonema, o beijo e o abraço não chegaram;
A cadeia de união foi quebrada, faltam elos que não respondem à chamada no Oriente eterno;
O Dia não se cumpriu, nem justo nem perfeito;
...
A festa fez-se de fantasmas, gentes e almas ausentes,
na tarefa de repor os elos quebrados, num processo de renovação constante.

domingo, agosto 12, 2007

Te deum laudamus

Ser teu pai é ser mais alto,
É ser maior que os deuses, a quem roubei desconcertado,
É ter dos homens apartado, um sonho que me rodeia e exalto.
É ser menino e homem em mãos de criança,
É dormir em cama de esperança e sorrir mão na mão e estar acordado.
É moldar num só, trabalho, pensar e cansaço,
É juntar num só, suor, lágrimas e sangue casto,
e fazer deles todos, o teu melhor abraço,
por quem me encanto e de tudo me afasto.
É fazer de ti a mais pura verdade,
tão genuína como na noite das estrelas o céu,
E ter a certeza de que és meu e levar em cada cabelo teu,
o laço que me prende à realidade;
É fazer de ti mais perto, o infinito;
É ver de tudo o mais belo, e em ti o mais bonito.


Parabéns meu adorado filho pelo teu 4º aniversário.
Bendita a hora em que passaste a existir.

terça-feira, agosto 07, 2007

Piedade


Se te move tanto a piedade,
Pelos que longe estão sem alcance,
Faz do teu dia acto de bondade
Aos que perto, o teu olhar lance,
Pão, abrigo e cuidados de caridade,
De todos sejas quem antes avance,
Te batam calmas as horas em paz,
Deus faça bem a quem bem faz.

(2-8-2003 de Rui G. com último verso de minha Mãe)

terça-feira, julho 31, 2007

Grávida de Mãe


O teu corpo mudou.
O teu sorriso ficou mais branco e a alma ganhou a forma que desconhecia.
Os seios e o ventre impuseram-se ao mundo, mostraram que existem e que nenhum poeta ou pintor os souberam ainda escrever ou pintar com a justiça dos mestres.
As emoções e os sentimentos fizeram novelos com que foste tecendo sonhos, esperanças e o futuro num imaginário só teu.
Pouco a pouco, o toque das mãos com que embalas o ventre, sente dentro, outro mais delicado que procura descobrir-se num espaço que está dentro de ti.
O mundo já não é só teu, já não te pertence só a ti e tudo o que tens, juntaste num legado que tomou o nome que transportas contigo.
Em breve, o teu corpo vai dividir-se entre ti mesma e um pouco mais além, do que de ti nasceu.
E eu, embalo-me apenas no encanto de te ver mudar.
O teu corpo mudou e nunca te vi mais bonita nem nunca foste tão bela, até seres Mãe.
...
(Nenhuma Mulher pode ascender em grau algum de beleza, para além do momento da Gravidez.
A Maternidade pode muitas vezes tornar-se no que se transforma tudo o que o Amor conhece)

sábado, julho 28, 2007

Saudades do Colo de Mãe


Hoje fui visitar a minha Mãe.
Apeteceu-me o colo que me embalou.
Tenho saudades de estar com ela.
Apetece-me voar.

quinta-feira, julho 26, 2007

O oráculo da terra


Quase todos nós temos uma flor preferida, aquela cuja visão nos faz sorrir, aquela cujo odor se torna tão especial.
A minha desde sempre foi a “Rosa Chinesa”, também conhecida por “Hibisco” ou “Hibiscus Sinensis”, em especial o de cor amarela.
Esta devoção levara-me a tentar, vezes sem conta a procurar manter esta espécie no meu jardim, mas o insucesso teimou sempre em se sobrepor à minha vontade, qual sina impossível de contrariar.

Há algum tempo, a paixão ressurgiu perante um magnífico exemplar que me deixou encantado na forma e beleza das flores. A vontade matou a indecisão e o momento de a plantar num vaso especial não tardou.
Dia após dia, belas flores amarelas decoravam o espreguiçar de pequenos ramos que apontavam ao Sol como alegres sorrisos em silêncio que apenas os olhos escutavam.

Inevitavelmente parasitas tomaram conta das flores, como invasores profanando aqueles pequenos templos de beleza. Breve foi a decisão de proteger aqueles espaços sagrados com medidas e aplicação de desinfestantes, cuja vontade foi maior que a cautela e em breve, flores e folhas abandonariam lentamente os mesmos ramos que outrora floriam com entusiasmo e agora limitavam-se a uma mumificação desconcertante.
A minha planta morria lentamente e a impotência de não poder fazer nada acompanhava aquele cortejo fúnebre de queda de folhas e flores que abandonavam à terra num anúncio de morte.

Já sem folhas nem flores, pequenos ramos secavam, inertes e despidos, que um carinho escondido teimava em regar e recusava-se a cortar, semanas a fio, mesmo ante o veredicto conhecedor e infalível do jardineiro, que a sorte cruelmente confirmara nas tentativas anteriores.

Um dia de manhã, quando já a sorte e a falta de vontade de fazer o que quer que fosse acompanhavam o desânimo de tudo e de todos, daqueles pequenos ramos surgiram pequenos pontos verdes, que horas depois se denunciaram em folhas igualmente pequenas, de um verde aberto e firme, fazendo anunciar ao mundo um renascimento que desejando, não entendia.
Em pouco tempo, daqueles ramos secos as pequenas folhas sucederam-se e num dia mais intenso, alguns ramos mais entusiasmados com o Sol, ofereceram as primeiras flores amarelas que os meus olhos ouviram numa mensagem de prenúncio e de tenacidade daquele sábio oráculo da terra.

segunda-feira, julho 16, 2007

Fui no espaço ... descansar ao som do tempo

Sabem os que me conhecem, que me entrego de corpo e alma, por inteiro ao que gosto e aos de quem eu gosto. Assim, gosto de me entregar incondicionalmente, na plenitude do meu ser e das minhas capacidades, de modo a corresponder ao que sempre em mim os outros têm encontrado.

Todavia, algumas fases e momentos da nossa vida vão exigindo muito e por vezes demasiado de nós, levando-nos a um débito emocional, a que o ritmo diário começa a ter dificuldade em responder, remetendo-nos a uma situação onde sentimos a necessidade do descanso e de retemperar as forças, sobretudo quando a alma e o corpo se desencontram no espaço, na dimensão e no tempo.
A dificuldade de tempos passados e recentes foi-me cobrando inexoravelmente os sentidos e por vezes a vida exige-nos a dimensão que o corpo não preenche, obrigando a lamentos que silenciosamente fui guardando ao abrigo dos demais, embrulhados no eterno sorriso que vos deixo.

Sabem os que me conhecem, que me entrego de corpo e alma, por inteiro ao que gosto e aos de quem eu gosto e assim sendo, vou repousar para poder mais tarde entregar-me na plenitude do meu ser e das minhas capacidades, de modo a corresponder ao que sempre em mim vos habituei e merecem.

Não sei quando voltarei, mas estarei sempre convosco, como sempre tenho estado, no corpo e na alma.

"Não é mérito o facto de não termos caído, e sim, o de nos termos levantado todas as vezes que caímos" (provérbio árabe)

sexta-feira, julho 13, 2007

Quando ...


Quando não me vires, não me procures mas ouve-me porque posso estar perto de ti;
Quando não me ouvires, sente-me porque posso estar contigo;
Quando não me sentires, procura-me porque estarei longe.

Quando me procurares, busca-me apenas dentro de ti.

segunda-feira, julho 09, 2007

De partida, à chegada ...

No meio de multidões, entre idas e chegadas, os aeroportos e as estações constituem-se como pequenos grandes aquários do mundo, onde nos atiramos quase furtivamente à condição de observadores e observados.
Ao desejo da partida, como se quiséssemos despachar um acto incontornavelmente incómodo, sobrevem a viagem propriamente dita, onde a satisfação de alguns convive com o ar penitente dos que anseiam pelo destino.
A chegada aparece, lenta e quase de repente, quer como o limite do alívio e da satisfação, quer como o auge da impaciência para ultrapassar o obstáculo final das últimas portas que nos separam do mundo que nos espera.
À saída, mesmo quando sabemos não ser aguardados, os olhos varrem involuntariamente a multidão em filas de caras na expectativa do reconhecimento familiar, na necessidade não confidenciada de uma chegada desejada por alguém.
Passada a parada da espera, sem ninguém que nos receba, a solidão remete-nos à condição de ignorados, onde insignificantes à partida, sentimos que chegámos a lugar nenhum.

sábado, julho 07, 2007

"MomentUS" de excelência

A Nina do blog MomentUS entendeu por bem e criar o seu próprio no sentido de o atribuir pela excelência do que é dito e de como é dito - pelas palavras, pela música, pelas reflexões, pelas imagens, pelos desafios, pela solidariedade, pela vida partilhada...).
Muito sinceramente não me acho merecedor de tal distinção, mas reconheço que numa altura em que prémios e nomeações pululam, receber um que foi criado pela própria autora, me sensibilizou particularmente.

Encontrei-me virtualmente pela primeira vez com a Nina, no blog "E se um anjo..." e confesso-me desde então contagiado pela delicadeza da escrita e pelo aroma das frases com que nos desperta os sentidos.

Obrigado Nina, e o teu apreço pelo Luar do Deserto reforça o prazer de te receber neste espaço, reiterado na admiração sincera do teu talento.

Assim, e seguindo a indicação e o critérios da Nina, ainda que repetindo-me, vou nomear os blogs que ao lê-los, o meu tempo se transforma em verdadeiros momentUS de excelência, onde me delicio em longas caminhadas em silêncios discretos de leitura.
Assim e neste contexto, este é o prémio mais importante que até agora atribuí.

Simplesmente adoro estes blogs e as pessoas que os escrevem:

MomentUS - da Nina (pela delicadeza e a ternura em forma de escrita)
Ana Luar - da Ana Luar (pela delícia de escrita e de turbilhão de sentimentos)
A luz do poema - da Maat (aqui a pessoa e a escrita fundem-se num encanto)
A luz do vôo - da Maria do Céu (recato, beleza e emoção)
Momentos - da "o Momento" (ternura e criatividade espontânea)
Flor de Sal - da "Fofa" (intensidade e sentimento)
As minhas romãs - da Paula Raposo (paixão em tons fortes)
Teu sonho meu - da "Azul" (entrega e paixão)
Contra Capa - da Cristina Vieira (relato público diário)
Riso cor de Tejo - da Risoleta (encanto e mestria na escrita)

Bem hajam e um sincero obrigado por partilharem o que escrevem e assim, fazerem parte do meu quotidiano.

domingo, julho 01, 2007

Blog Awards

Embora lido por poucos e comentado por ainda menos, têm querido algumas pessoas atribuir a este blog, nomeações que sobretudo, reflectem a simpatia que me merecem.

A verdade é que algumas das pessoas que por aqui passam e que são autores de blogs por onde passo os olhos e distraio a alma, tornaram-se uma atenção constante e diária, qual certeza de que o sol aparece quando cada dia nasce.

Assim, apresento os meus agradecimentos sinceros aos que nomearam, nomeadamente:

Ana Luar do blog Ana Luar:
A Ana é uma pessoa que escreve deliciosamente, além de outras aptidões criativas onde se expressa, nomeadamente a da pintura. Tenho o prazer de ter a sua Amizade há muito tempo o que redobra o prazer da sua nomeação.

Um Momento do blog Momentos:
Este é um blog diferente e bastante interessante pelo facto da autora escrever no momento e de forma espontânea, o que denota a capacidade de escrita e criativa, sobretudo nalguns textos onde esta é levada ao expoente.

Gasolina do blog Flor da Palavra:
Para quem, como eu, raramente lê um livro, quando acede a este blog, é como se entrasse numa biblioteca e desfolhasse despreocupadamente o que da melhor forma se escreve, fazendo-o de uma forma que denuncia mestria no que faz.

NOMEAÇÕES:
Cabe-me por meu turno, manter a tradição e apresentar aqui aquelas que são as minhas nomeações, as quais reflectem o que penso, indiferentemente de quem se trate ou se as mesmas pessoas me nomearam ou não.

Os nomeados para as "7 Maravilhas da Blogosfera" (blogs que entendo que na sua generalidade são excelentes, na forma e no conteúdo) são:


Ana Luar - da Ana Luar (um blog interessante, com vida própria)
Contra Capa - da Cristina Vieira (uma forma dinâmica de falar)
O Alquimista - do Alquimista (a magia do imaginário)
A Luz do Poema - da Maat (um local de sabedoria)
MomentUS - da Nina (uma forma inteligente de amar)
Momentos - da "o Momento" (momentos espontâneos)
Flor da Palavra - da Gasolina (pedaços de literatura de qualidade)



Os nomeados para "Blogs com Tomates" (blogs que se afirmam na independência do espírito, abordando temas sem preconceitos) são:

Nau Catrineta - do Zeca da Nau
Nicolaias - do Vigilante
Amanhecer e Palavras Ousadas - da Conceição Benardino
Energias Alternativas - do Joaquim Guerra
A Economia - do "Simplesmente Louco"


Os nomeados para "O meu blog fala de Amor" e "Cupido fonte de Amor" (blogs que falam do Amor por alguém, por ninguém em especial ou pelos outos) são:


Ana Luar - da Ana Luar
MomentUS - da Nina
Teu sonho meu - da Azul
Flor de Sal - da Fofa
As minhas romãs - da Paula Raposo
Momentos - da "o Momento"
A minha louca paixão - do Simplesmente Louco
Cleopatra Moon - da Cleopatra
Magia, palavras e outras coisas - da "Magia"
Ondulações da Alma - da Sereia Azul


Os nomeados para "Fly Award" (blogs que merecem verdadeiros óscares) são:

Ana Luar - da Ana Luar
Contra Capa - da Cristina Vieira
O Alquimista - do Alquimista
A Luz do Poema - da Maat
A luz do vôo - Maria do Céu
MomentUS - da Nina
Momentos - da "o Momento"
Flor da Palavra - da Gasolina
Cleopatra Moon - da Cleopatra
Coração nas núvens - do João Cordeiro
Parágrafos inacabados - da Raquel Vasconcelos
Jorge Moreira - do Jorge Moreira


e alguns outros, em que a memória e a distração são cúmplices na omissão, e se esquecido eu padeça, assim não seja no apreço de todos os que passam e comentam.

quarta-feira, junho 20, 2007

Traços do silêncio

O amor prometido, ..... o de filho;
Uma busca, .......... a do abraço;
O amigo mais fiel, ............... o vazio;
A míngua, .................... a de um sorriso;
A maior ausência, ......................... a de Mãe;
A pior das faltas, .............................. a do melhor amigo;
Fica a vontade, ... de nada ................................................................................................ .

sexta-feira, junho 15, 2007

Na noite de ninguém ...


Ao abrigo da noite de ninguém, adormeço só, contigo ao lado e longe de mim.
Natural como o tempo, passas comigo a noite, como uma promessa de um desejo confessado à lua que nos observa em lençóis de prata.
Antes do dia raiar, quase de manhã, dou-te o pequeno almoço dos anjos e selo o teu apetite final com um beijo enquanto te deixo descansar e vou com o sol para além do horizonte, deixando-te a pensar que foi um sonho e que eu não existo.

quinta-feira, junho 14, 2007

Bushinóquio

O presidente do Estados Unidos da América (EUA), George Bush, perdeu o relógio enquanto acenava e distribuía beijos pelos habitantes de Fushe Kruje, o último ponto da sua visita à Albânia, segundo informaram as televisões locais.

Contudo, o porta-voz da Casa Branca informou que não tinham conhecimento de que presidente norte-americano tinha perdido o relógio e que aquele o teria guardado no bolso.

Se o George Bush e a Casa Branca são capazes de mentir pelo roubo mais que evidente e visionado do relógio, o que não terão mentido sobre causas bem mais importantes.

Ele há gajos que mesmo cobertos de ouro, continuam a ter o valor de estrume.

quarta-feira, junho 13, 2007

Ilda: 13 de Junho de 1950 ... 16 de Outubro de 1955

Parabéns minha Irmã,
agora na companhia dos Pais.

Paz Profunda

domingo, junho 10, 2007

Os quatro lenços sagrados


Eram quatro os lenços que a minha mãe usava, tantos quantos os pontos cardeais.
Habituei-me a vê-los, emoldurando aquela face, que ora sorria na mais terna expressão, ora transparecia num olhar distante, os danos que a vida lhe causara.

Assim, aqueles lenços tornaram-se o ex-libris de quem me embalara na infância e alentara incondiconalmente em toda a minha existência, até que os nossos caminhos seguiram dias diferentes, à distância de um arco-íris.

Decidi então, que quais raios de luz, Daquela que venerada tinha, seguissem os mesmos lenços direcções cardeais, num abraço eterno de saudade, que no seu todo, reunissem os sentimentos sagrados que encontrara Naquela a quem tinham pertencido, designadamente Amor, Cumplicidade, Fraternidade e Carinho.

Eram quatro os lenços que a minha mãe usava, tantos quantos os pontos cardeais.
Habituei-me a vê-los, emoldurando aquela face, hoje emolduram as faces que juntas me fazem sentir a Dela.

- À minha tia, que qual segunda Mãe, velando, me seguiu sempre os passos;
- À Mariah (a Mãe) que caminha ao meu lado, do lado do coração;
- À Maria do Céu (a Irmã) que discreta caminha ao lado, num apoio em silêncio;
- À Ana, que velando, lhe sigo os passos num carinho imensurável.

sexta-feira, junho 01, 2007

Dia mundial da criança

Comemora-se no dia 1 de Junho o "Dia Mundial da Criança".

No dia 1 de Junho, dias anteriores e seguintes:
  • Continua o tráfico de crianças um pouco por todo o mundo, com particular incidência em África e na Ásia;
  • São vendidas ou entregues crianças pelos pais, porque não as podem sustentar, nomeadamente na Índia;
  • Morrem crianças devido a maus tratos, frequentemente com a conivência e a inoperacionalidade de instituições, criadas apenas por fantochadas políticas;
  • Crianças são violadas, enquanto os seus violadores são alvo de benevolência judicial;
  • Crianças são alvo de pedofilia, sem que haja um combate insistente e eficaz sobre este tipo de crime, talvez porque envolvam figuras proeminentes da sociedade;
  • Crianças são raptadas, sendo raras as vezes em que a comunidade internacional se empenha na sua procura e resgate;
  • Crianças são mortas em guerras, vítimas da ganância política e da indústria do armamento, perante a indiferença internacional;
  • Morrem crianças de fome.

Por isso, senhores políticos com influência internacional e senhores industriais do armamento, vão à merda.

Aquelas crianças também são meus filhos e o dia 1 de Junho também é um dia de luto e de vergonha internacional.

Isto não quer dizer que não se deva comemorar este dia, antes pelo contrário, que neste dia se comemorem acções e intenções concretas na defesa dos direitos e da integridade de todas as crianças. Que grande parte dos políticos e dos decisores, que nada fazendo ou cuidando de facto, passem da condição de esterco social e inútil, para agentes de mudança efectiva em prol daqueles que mais necessitam de apoio e de defesa.

Em cada criança, de qualquer raça, credo ou condição social, está um pouco de mim, que ri, brinca e sofre com ela.

quarta-feira, maio 16, 2007

Pai... (16-5-1921 ... 11-12-2004)

Pai, pesa-me o tempo que não tivemos, enquanto a memória procurar preencher os espaços vazios com retratos de épocas que não vivemos.

Os pinheiros da serra abatem-se na caruma nos caminhos que percorreste, ao som do ribombar dos petardos nas pedreiras, onde o granito deu cor à tua infância na casa onde habitaste à sombra do velho limoeiro, lançado sobranceiro sobre o muro da leira.

O cheiro a café com leite matinal já não perfuma o ar, numa mistura que o queimar da lareira emprestava ao cântico familiar de odores que só ali se conheciam.

A lenda do “mil homens” já não se conta e os mais velhos agora calam-se nos bancos das vendas, ao ritmo das canadas e quartilhos de champarrião, acompanhados pelas lascas das cebolas novas que o sal grosso salpicou como a neve nos caminhos.

Pai, pesa-me o tempo que não tivemos, enquanto a memória procurar preencher os espaços vazios com retratos de épocas que não vivemos.

sábado, maio 05, 2007

Dia da Mãe ... sem ...

Mãe ...
Mãe ...
Mãe, onde estás ?

Chamo-te e não respondes.
Espero-te e não vens.

Vou esperar pela noite, para te ver brilhar no céu.

sábado, abril 21, 2007

Thinking Blogger Award


Foi atribuído ao «Luar do Deserto» pela Ana Luar do blog com o mesmo nome, o Thinking Blogger Award.

Porém, sabem os que me conhecem, que não me revejo em distinções ou honrarias, embora respeite e agradeça a atenção de que em algum momento seja alvo, e nesse contexto, inclino-me pela Ana Luar, pela distinção que me atribuiu, conquanto entenda que o melhor prémio que possa receber, seja o da Amizade, que já por si, inclui igualmente a Fraternidade e Companheirismo, sem os quais, a Vida se torna pura fantasia ou imaginação.
Sabem também os que me conhecem, do meu entendimento de que a atribuição desta nomeação, ultrapassa o meu merecimento, face aos inúmeros blogs que são testemunhos de qualidade de escrita e de conhecimento.
Sabem os que me conhecem, que cada post do «Luar do Deserto» é simultaneamente um acto de amor e frequentemente um grito solitário de dor.

Diz a tradição que quando se recebe esta distinção, se coloque o respectivo logotipo enquanto se nomeiem outros 5 blogs para igual atribuição.
Assim, irei manter esse procedimento, embora o faça na indiferença de quem mo atribuiu ou de quem já lhe tnha sido atribuído, baseando-me apenas na minha preferência e discernimento sobre o valor dos blogs em análise.

Deste modo, atribuo o Thinking Blogger Award a:
  • «Contra Capa» de Cristina Vieira, pela foma, frequência e conteúdo constantes, colocando à discussão, temas actuais. A escrita é incisiva, suficientemente resumida e pouco fica por dizer ou comentar;

  • «Ana Luar» de Ana Luar, pela beleza do conteúdo e profundidade dos sentimentos que nele coloca, sendo cada post, como um ramo nascido da própria Ana;

  • «A luz do poema» de Maat, pelo imenso horizonte e ensinamento onde este blog, sucedendo ao "Arde o azul" é apenas um exemplo dos demais blogs;

  • «O Alquimista» do Alquimista, pelo conteúdo e forma de escrita, tomando nos contos e lendas, uma forma actual e bela de transmitir conhecimento e sentimentos;

  • «momentUS» de Nina, pela beleza da escrita e modo de transmitir sentimentos de modo quase sobrenatural, transportando-nos a um estado letárgico de prazer no entendimento das palavras.
A exiguidade do número disponível para a atribuição, impedem-me de igualmente nomear, os seguintes blogs, que seriam, no meu entender, entre outros, igualmente merecedores:
Muito obrigado a todos, visitantes e visitados, num abraço fraterno.