sábado, abril 21, 2007

Thinking Blogger Award


Foi atribuído ao «Luar do Deserto» pela Ana Luar do blog com o mesmo nome, o Thinking Blogger Award.

Porém, sabem os que me conhecem, que não me revejo em distinções ou honrarias, embora respeite e agradeça a atenção de que em algum momento seja alvo, e nesse contexto, inclino-me pela Ana Luar, pela distinção que me atribuiu, conquanto entenda que o melhor prémio que possa receber, seja o da Amizade, que já por si, inclui igualmente a Fraternidade e Companheirismo, sem os quais, a Vida se torna pura fantasia ou imaginação.
Sabem também os que me conhecem, do meu entendimento de que a atribuição desta nomeação, ultrapassa o meu merecimento, face aos inúmeros blogs que são testemunhos de qualidade de escrita e de conhecimento.
Sabem os que me conhecem, que cada post do «Luar do Deserto» é simultaneamente um acto de amor e frequentemente um grito solitário de dor.

Diz a tradição que quando se recebe esta distinção, se coloque o respectivo logotipo enquanto se nomeiem outros 5 blogs para igual atribuição.
Assim, irei manter esse procedimento, embora o faça na indiferença de quem mo atribuiu ou de quem já lhe tnha sido atribuído, baseando-me apenas na minha preferência e discernimento sobre o valor dos blogs em análise.

Deste modo, atribuo o Thinking Blogger Award a:
  • «Contra Capa» de Cristina Vieira, pela foma, frequência e conteúdo constantes, colocando à discussão, temas actuais. A escrita é incisiva, suficientemente resumida e pouco fica por dizer ou comentar;

  • «Ana Luar» de Ana Luar, pela beleza do conteúdo e profundidade dos sentimentos que nele coloca, sendo cada post, como um ramo nascido da própria Ana;

  • «A luz do poema» de Maat, pelo imenso horizonte e ensinamento onde este blog, sucedendo ao "Arde o azul" é apenas um exemplo dos demais blogs;

  • «O Alquimista» do Alquimista, pelo conteúdo e forma de escrita, tomando nos contos e lendas, uma forma actual e bela de transmitir conhecimento e sentimentos;

  • «momentUS» de Nina, pela beleza da escrita e modo de transmitir sentimentos de modo quase sobrenatural, transportando-nos a um estado letárgico de prazer no entendimento das palavras.
A exiguidade do número disponível para a atribuição, impedem-me de igualmente nomear, os seguintes blogs, que seriam, no meu entender, entre outros, igualmente merecedores:
Muito obrigado a todos, visitantes e visitados, num abraço fraterno.

terça-feira, abril 17, 2007

O "velho leão"...


O "velho leão" dorme, enqunto o batuque dos tambores rufa apressado na chamada dos deuses a terreiro.
Passo a passo, os guerreiros aproximam-se em passo lento, num preâmbulo já conhecido do temor da dança da morte, com as lanças apontadas ao chão em memória ao passado.
São os passos, as palmas e as danças que em torno das fogueiras, se embalam ritmados pelo torcer das chamas em torno dos paus da mesma idade.

Ao longe o "velho leão" caminha sobre sonhos para o oriente eterno, através das picadas onde ficaram as pegadas, enquanto os rugidos se fazem ouvir agora nos que lhe seguem o trilho, numa homenagem diária, que só os dignos conhecem.

Em murmúrio, os riachos transbordam com as lágrimas da selva, onde as pedras das montanhas altas do nordeste também choram, pela partida do "velho leão".

(Em memória ao Sr. Anselmo que hoje caminhou para o oriente eterno e por quem senti o mais sincero apreço, igual ao que lhe igualmente reconheci, como referência inquestionável de solidariedade e de dignidade. Repouse lá no céu eternamente, em Paz Profunda)

segunda-feira, abril 16, 2007

O homem das pedras


Um dia um homem idoso seguia por um caminho pedregoso quando encontra na beira, um homem sentado e de olhar triste com lágrimas nas faces.
O idoso, tocado pela emoção, aproxima-se e pergunta-lhe "o que tens ?"
O outro responde-lhe recompondo-se numa tentativa de recupera o orgulho "não tenho nada"
O idoso, resignado com a resposta, abaixa-se e apanha uma pedra que coloca na mão do outro e vai-se embora.

No dia seguinte o idoso volta a passar e volta a encontrar o outro na mesma postura triste e volta-lhe a perguntar o que ele tinha.
A resposta e postura foram as mesmas e novamente o idoso apanha uma pedra e que coloca na mão do homem quebrado.

Surpreendido o homem cuja tristeza não conseguira difarçar, vira-se para o outro e pergunta-lhe "porque me colocas pedras na mão quando te digo que não tenho nada ?"
O idoso responde-lhe "para me mentires quando te vejo triste e me preocupo contigo, dizendo que não tens nada, mais vale enxotares-me atirando-me essas pedras, pois melhor fazes afastares quem enganas que aceitares quem te engana a ti".

sábado, abril 07, 2007

Pensar ... devagar


Quem tome a localidade da Foz do Arelho como destino, é recebido por uma meia dúzia de "lombas" na estrada, que por aquele dificilmente se tomam, pois que a sua altura rasa a dos passeios laterais, consitituindo-se assim, como obstáculos de uma dezena de centímetros de cota.

Não sei quem teve a decisão de tal aberração, mas sei que não pensou nem ambulâncias nem noutro qualquer transporte que obrigue a cuidados e muito menos no bom senso de utilização de qualquer veículo rodoviário.
Se a intenção era a de obrigar os automóveis a circularem devagar, existem meios para o efeito que seguramente cumprem melhor a função, pois "lombas" daquela altura, melhor se prestam a "muros", que revelam que não só se anda devagar, como quem os fez, pensou ainda mais devagar.
Sr. Presidente da Câmara e Sr. Presidente da Junta de Freguesia, não sei qual de vós teve tal triste ideia, mas calculo que quem foi o autor, a teve depois de um almoço bem regado de certeza.

domingo, abril 01, 2007

Falando de Saúde, ou nem por isso ...


«Artigo 64.º da Constituição da República Portuguesa - Saúde.
1. Todos têm direito à protecção da saúde e o dever de a defender e promover.
2. O direito à protecção da saúde é realizado:
a) Através de um serviço nacional de saúde universal e geral e, tendo em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos, tendencialmente gratuito;
b) Pela criação de condições económicas, sociais, culturais e ambientais que garantam, designadamente, a protecção da infância, da juventude e da velhice, e pela melhoria sistemática das condições de vida e de trabalho, bem como pela promoção da cultura física e desportiva, escolar e popular, e ainda pelo desenvolvimento da educação sanitária do povo e de práticas de vida saudável.
3. Para assegurar o direito à protecção da saúde, incumbe prioritariamente ao Estado:
a) Garantir o acesso de todos os cidadãos, independentemente da sua condição económica, aos cuidados da medicina preventiva, curativa e de reabilitação;
b) Garantir uma racional e eficiente cobertura de todo o país em recursos humanos e unidades de saúde;
c) Orientar a sua acção para a socialização dos custos dos cuidados médicos e medicamentosos;
d) Disciplinar e fiscalizar as formas empresariais e privadas da medicina, articulando-as com o serviço nacional de saúde, por forma a assegurar, nas instituições de saúde públicas e privadas, adequados padrões de eficiência e de qualidade;
e) Disciplinar e controlar a produção, a distribuição, a comercialização e o uso dos produtos químicos, biológicos e farmacêuticos e outros meios de tratamento e diagnóstico;
f) Estabelecer políticas de prevenção e tratamento da toxicodependência.
4. O serviço nacional de saúde tem gestão descentralizada e participada.
O texto actual da Constituição da República Portuguesa foi aprovado pela Lei Constitucional n.º 1/2001, de 12 de Dezembro.»

«Aprovada pela Lei n.º 48/90, Lei de Bases da Saúde, de 24 de Agosto, com as alterações introduzidas pela Lei n.º 27/2002, de 8 de Novembro.
A Assembleia da República decreta, nos termos dos artigos 164.º, alínea d), 168.º, n.º 1, alínea f), e 169.º, n.º 3, da Constituição, o seguinte:

CAPÍTULO I - Disposições geraisBase I - Princípios gerais

1 - A protecção da saúde constitui um direito dos indivíduos e da comunidade que se efectiva pela responsabilidade conjunta dos cidadãos, da sociedade e do Estado, em liberdade de procura e de prestação de cuidados, nos termos da Constituição e da lei.
2 - O Estado promove e garante o acesso de todos os cidadãos aos cuidados de saúde nos limites dos recursos humanos, técnicos e financeiros disponíveis.
3 - A promoção e a defesa da saúde pública são efectuadas através da actividade do Estado e de outros entes públicos, podendo as organizações da sociedade civil ser associadas àquela actividade.
4 - Os cuidados de saúde são prestados por serviços e estabelecimentos do Estado ou, sob fiscalização deste, por outros entes públicos ou por entidades privadas, sem ou com fins lucrativos. ...»
...
O Serviço Nacional de Saúde, foi concebido e criado com a finalidade de concretizar um dos princípios mais importantes da Sociedade, o de proporcionar os cuidados de saúde a todos os cidadãos, procurando que o seu acesso e prestação evolua no sentido da eficiência e da eficácia.
Sendo, a par da Educação, uma das pedras basilares de qualquer Sociedade que se pretenda justa, a Saúde constitui-se por isso, além do seu impacte social e financeiro, um dos maiores desafios para os Governos e Ministérios que a administram e uma área de apetência para grupos económicos e outras entidades empresariais.

Assim, e para melhor compreendermos o que se passa em termos de Saúde em Portugal, vejamos alguma informação muito simples:

- Há alguns anos, apareceram as "taxas moderadoras" supostamente para que os utentes comparticipassem directamente nos custos dos cuidados de saúde que lhes fossem prestados;
- Desde há anos que os "Seguros de Saúde" têm sido promovidos, teoricamente não como alternativa do Serviço Nacional de Saúde do qual não existe isenção contributória, mas como complemento àquele, no reconhecimento da sua real incapacidade de responder satisfatoriamente às necessidades;
- Desde há anos que os valores de comparticipação em medicamentos por parte do Estado têm diminuído;
- Hoje mesmo, entram em vigor as novas taxas moderadoras. Assim, os utentes do SNS vão começar a pagar as novas taxas moderadoras por internamento de 5€ por dia e de 10€ por cirurgia de ambulatório;
- Hoje mesmo, o ministério da saúde actualiza também o valor das restantes taxas moderadoras, acompanhando a inflação de 2006. Os utentes vão assim passar a pagar 4,30€ nas consultas nos hospitais centrais, 2,85€ nos hospitais distritais e 2,10€ nos centros de saúde. O atendimento nas urgências dos hospitais centrais passa a ter uma taxa de 8,75€, sendo de 7,75€ nos hospitais distritais, de 3,40€ nos centros de saúde e de 4,30€ no serviço domiciliário. Já nos exames radiológicos as taxas sofrem aumentos entre os 10 cêntimos para as ecografias (agora 4,50€) e os 60 cêntimos para as ressonâncias magnéticas (20,10€), enquanto que nas análises de sangue os valores mantêm-se inalterados.

Todos estes valores, podem parecer pequenos ou para muitos até ridículos, mas a realidade é que para os mais desfavorecidos, que por vezes são obrigatoriamente frequentadores dos serviços de saúde, aqueles valores são mais uma sobrecarga ao já magro orçamento com que sobrevivem. Assim, para quem aufira rendimentos a que lhe correspondam pouco mais de 10 euros diários e tendo em conta que muitos são obrigados a recorrer com frequência a cuidados de saúde com a compra necessária de medicamentos, pagar taxas moderadoras, torna-se a alternativa incontornável a outros bens essenciais, como a alimentação saudável ou a outros bens que contribuam para uma vida com o mínimo de conforto.

Se por um lado a Constituição consagra que todos têm direito à protecção da saúde através de um sistema tendenciamente gratuito, os Governos têm dito garantir o acesso dos cidadãos aos cuidados de saúde dentro dos limites humanos, técnicos e financeiros, sem que justifique o seguinte:

- Qual a prioridade de consciência política e social, de atribuição orçamental para a Saúde ?
- Qual a prioridade de consciência política e social, ao exigir comparticipação financeira no enquadramento das taxas moderadoras, enquanto atribui indemnizações na ordem de meio milhão de euros a gestores que por si são posteriormente recolocados em organismos, numa atitude financeira e socialmente difícil de entender e aparentemente imoral aos olhos de quem não a entenda ?

Estaremos a falar de Saúde, ou nem por isso, mas apenas estamos a ser incapazes de gerir e de relançar um Sistema Nacional de Saúde de facto, que resulte de atitudes de gestão concertadas e que sobreponham os objectivos nacionais aos políticos e pessoais ?

terça-feira, março 27, 2007

Grandes e pequenos portugueses

41% dos portugueses que participaram na escolha dos "Grandes Portugueses", através do programa da RTP1, elegeu Oliveira Salazar como um "grande português".


Não vou discutir se se trata de branqueamento de 48 anos de fascismo, nem me encontro a favor da censura ou da acção da polícia política e da falta de liberdade ou sequer do protagonismo do antigo império colonial português.
Mas entendo que mais do que votos a favor do antigo ditador como um grande português, foram votos contra os "pequenos portugueses" que lhe têm sucedido, sobretudo na época recente e actual.

Àparte a ditadura que castigou este povo, o mesmo se questiona quanto à falta actual de referências de valores, de honestidade e de empenho nacional genuínos que outrora reconhecera, ainda que ensombrados pela falta de liberdade e desrespeito pelos direitos humanos.

Diria quase que, mais que o mal que pudesse existir em Salazar, este era ultrapassado sobretudo nos salazaristas, muitos dos quais,mesmo assim, à luz de muitos políticos que agora pululam no teatro político, quase que se tornavam recomendáveis.

Salazar entendia que cada país devia bastar-se a si próprio. Hoje alguns políticos actuam de modo a que um paí os os baste a eles próprios.
Salazar conduziu de forma, que reconheçamos surpreendente, a recuperação económica nacional, ainda que aplicando métodos discutíveis mas que mostraram eficácia no pragmatismo. Hoje temos governantes que se contorcem atabalhoadamente em excertos económicos, sem uma estratégia eficaz, seja a curto, médio ou longo prazos.

Assim, e atendendo ao estado ditaturial que Salazar permitiu e proporcinou, assumo que ele poderia não ter sido um "grande português", mas claramente constatamos que estamos actualmente em presença de políticos e governantes que não passam de "pequenos portugueses" pela actual ausência de valores e de mérito. E é bom lembrar que é de estados políticos actuais que surgem normalmente as ditaduras e os ditadores.

sexta-feira, março 23, 2007

O falso ladrão ...

Saiu de casa com a mesma roupa de sempre com que mal cobre o corpo. Não fora a tranquilidade que lhe decora a alma e o frio faria tremer ainda mais aquele corpo magro denunciando quão ingrata lhe fora a vida.
O dia será igual aos anteriores e possivelmente aos que lhe seguirão na mesma busca que outros, na mesma condição, demandam em coro silencioso pelo governo diário.
Passam por ele, tão indiferentes quanto distantes todos os que o ignoram, pelas vestes que lhe injustiçam o pensamento e a vontade.

A caminhada fá-la ele calma, agora interrompida por aquela mulher de longos cabelos enfeitados de uma fita azul de cetim, que caíra tropeçando, a quem ele procura ajudar a levantar, estendendo-lhe a mão castigada do tempo, que ela aceita com hesitação, enquanto receosa ante tal figura, segura firme a mala que se franqueara na queda.

Adiante entra num café onde a casa de banho fechada o obriga resignado, a pedir um copo de água, que o empregado serve contrariado, enquanto se apressa a recolher as moedas que clientes haviam deixado como pagamento sobre o balcão e que em forma desajeitada tombam, rolando pelo chão. Saciada a sede, baixa-se e apanha as moedas caídas, que entrega ao empregado que coxeando se precipita para as apanhar.

O dia continuaria igual, remetendo à noite a esperança do sossego, altura em que um braseiro do casebre onde dormia, lhe prometia o calor que lhe fora negado durante o dia. O caminho de regresso, faz-se manso, tanto quanto o de ida e o silêncio fazia-lhe a companhia que não tivera antes.

A atenção apenas lhe fora entretanto despertada por uma carteira caída na soleira de uma porta, que entreaberta denunciava o descuido de quem entrara naquela casa, agora aberta à curiosidade ou à intenção de quem passasse.
Pegou na carteira e lança mão à porta que rangendo, se antecipa ao intuito do toque na campainha para assim entregar o achado.

O barulho da porta acompanha uns passos apressados, enquanto uma mão arrebata a carteira estendida e outra empurra violentamente quem a estende, num julgamento rápido e convicto ante as evidências que os seus olhos procuraram ver.

Estendido no chão, a fome que sentia e a dor na cabeça que resultara da queda vão-se dissipando, enquanto a vida lhe foge do olhar e a luz da lua se vai apagando, entrecortada pela face do homem que o agredira, que se aproximara coxeando, agora secundado por uma cara de mulher, de onde pendiam uns longos cabelos, enfeitados de uma fita azul de cetim.

segunda-feira, março 19, 2007

Dia do Pai


Durante anos houve um Pai que não quis Filho;
Durante anos houve um Filho que quis o Pai;
Durante anos houve um Filho que quis um Pai;
Durante anos houve um Pai que quis o Filho.

Hoje há um Filho que não tem Pai;
Hoje há um Filho que quer o Pai;
Hoje há um Pai que quer o Filho.
Hoje há um Pai e um Filho que se querem.

quinta-feira, março 15, 2007

No coração

- Como te sentes agora ?
- Um pouco melhor, mas ainda me custa respirar ?
- Tem cuidado contigo, molha a face com um pouco de água fresca.
- Já o fiz.
- Cheira algodão embebido com um pouco de alcoól e toma um pouco de café, chá preto ou chocolate. Espera, agora tenho a "Mãe" ao telefone, não se sente bem. Disse-lhe para repousar e tomar um pouco de vinho do Porto. Estou preocupado com ela. Vou vê-la.


- Tu com esses cuidados todos. Onde tens o consultório, que é para eu lá ir ?
- No meu coração.

Viagem ao passado

Abrem-se lentamente os meus olhos ao ritmo do bocejar do amanhecer, que a pouco e pouco estende aos pés um caminho que o sol vai iluminando complacente, apontando na direcção do horizonte que espera silencioso em tons de mel e de azul turquesa.
As mãos juntam-se onde os olhares se encontram, oferecendo-se abertos ao passos compassados que nos transportam às memórias do passado que se fazem sentir no desconhecido, entre desfiladeiros e dunas, onde o dourado e o rubor das sombras se juntam em tons quentes de ágata, que nos aquecem a alma.
No caminho feito, as pegadas profanam ligeiras, o sereno das areias, que o ondular dos cabelos decora em arabescos traçados pelo olhar dos olhos.
Foram momentos, dias ou anos imensos, que o vento leva revolto em pequenos grãos de areia do deserto, onde reencontro a sombra que lá deixei a que me junto na reconciliação da memória.
Olho em redor, e é só, que me apercebo que estás lá também.

terça-feira, março 13, 2007

Hoje ...


Hoje é um daqueles dias em que "viver" não passa duma frustrada função a que nos remete o reflexo de "respirar".

Daqueles dias em que acordamos com um cão morto à porta e o resto do dia se segue numa fúnebre sequência de acontecimentos que nos dá uma vontade suicida de mandar tudo às ortigas.

Um daqueles dias em que a "filha-da-putice" toma ares de bom-senso e a "sacanice" se veste de "bem-fazer", levando-nos a ecoar na alma o poema, no desejo de que "morra e pereça" o dia em que nasceram tais canalhas. Que a fúria dos deuses varra da terra tão ímpias gentes, que nas cinzas de vilanagem se encontrem para sempre em esquecida sepultura.

Hoje é um daqueles dias.
O dia de amanhã poderá ser melhor, mas o resto continua, pois tudo vai depender da proporção de tudo o que aconteça.

quinta-feira, março 08, 2007

É o Dia Internacional da Mulher !


Escolhi uma Mulher ao acaso, entre tantas outras que como a ela, foi dedicado este dia.

Queria dar-lhe uma flor, uma rosa branca de Paz, mas ela não sabia o que eram rosas.
Procurei telefonar-lhe primeiro para casa, mas ninguém atendia, porque afinal ela não tinha uma casa para se abrigar, pois tinha sido incendiada durante os confrontos sangrentos na sua terra, que ninguém ousa parar. Vira gentes de fora como eu, mas nada acontecera.
Tentei escrever-lhe, mas ela não sabe ler, pois tal como os seus filhos, não foi à escola, ocupada desde tenra idade a trabalhar para o sustento da casa. Ouviu falar em trabalho infantil, mas sempre trabalhou, qual serva do mundo que lhe pesa nos ombros.
Quis saber quem a ajudava, mas estava sozinha, pois o marido morrera numa guerra que ela não compreende mas que conhece pela família que foi perdendo.
Quis falar-lhe, mas o isolamento concentrava-a no trabalho escravo que não lhe dava tempo para viver, que não fosse para recolher as migalhas com que retardava a fome dos filhos sobreviventes, num mundo que não era seu.
Quis dar-lhe a minha mão, mas tive vergonha, porque eu não era suficientemente digno dela.

Escolhi uma Mulher ao acaso, entre tantas outras que como a ela, foi dedicado este dia, mas ela não sabia.
E eu, guardei a rosa branca para a lançar ao vento, até ver que a rosa era Ela.

terça-feira, março 06, 2007

Hino ao Sol



Ensinamentos de provérbios árabes ao som de uma das mais belas canções que ouvi até hoje "Hino ao Sol".

É impressionante o que sinto ao ver e ouvir este filme. É simplesmente indescritível. As lágrimas correm naturalmente como o vento por sobre as dunas do deserto.
Quem me dera lá estar e sentir aquele calor do deserto que nos abraça, num mar e horizonte de areia. Que saudade do que não conheço.

Pergunto-me interiormente "quem serei eu ?".

domingo, março 04, 2007

A viagem


Enche a alma, as velas mansas no vento,
Lá longe em viagem onde o mar tudo traga,
De lastro aqui pouco resta em pensamento,
Recordações que a memória mal apaga,
À sorte se deu pouco mais em sustento;
Que um choro baixo que esta dor afaga.
Morram e pereçam todos, quem mal te fez,
E assim se faça minha, a tua justiça, de vez.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Porque hoje não é dia mundial da criança


Porque hoje não é dia mundial da criança, a fome,a guerra e os maus tratos dissolvem-se no esquecimento da nossa consciência.

As crianças como esta não estão presentes nas reuniões dos partidos.
As crianças como esta não fazem parte dos governos.
As crianças como esta não estão nos clubes de futebol.
As crianças como esta dão a vida às armas dos soldados.
As crianças como esta dão o sangue aos políticos dos países.
As crianças como esta não nos templos de adoração.
As crianças como esta não estão nos corações dos homens.

As crianças como esta estão no meu coração, porque são também meus filhos.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Qual o pecado de Cristo ?


A multidão perfilava-se para apredejar aquela mulher, acusada de adultério e que respondia pelo nome de Maria Madalena.

Surge de repente um homem conhecido por todos, que interpondo-se, intervém dizendo "Aquele que nunca pecou que atire a primeira pedra".

Porque não atirou Cristo a primeira pedra ?
Qual o "pecado" de Cristo ?

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Homem caído


Na avenida, a passadeira de peões tornou-se a maca improvisada pela má sorte, onde um homem jaz de bruços, inerte e indiferente aos chamamentos dos que o rodeiam.
O cabelo grizalho sobressai no cinzento escuro do pavimento, agora ainda mais escuro pela chuva miúda, onde uma pequena poça vermelha, denuncia a ferida, resultante do embate da cabeça durante a queda.

Enquanto uns procuravam confortar aquele homem à espera de socorro, outros faziam coro na assistência que, ora se indignava na longa espera da ambulância, ora avançavam com diagnósticos ao sabor das vontades.
Um homem jovem, indiferente ao frio e à chuva miúda a que dois chapéus de chuva procuravam poupar, despe o casaco com que cobre aquele corpo caído que teimava no silêncio e na imobilidade apenas contrariada pelo pestanejar dos olhos.

Secundo os que o chamam, enquanto o olhar atento de soslaio me revelam uma imagem em quase tudo semelhante à que me fora familiar em tempos, qual a de meu pai.
Afago-o anonimamente, e quando lhe tomo as pernas nas mãos em busca de eventuais lesões, eis que aquele corpo surpreende e ganha vida e recupera o vigor que o faz levanta-se e caminhar indiferente aos presentes como se fosse levado por uma força que o fazia viver.

Afastou-se tão rápido, quanto inesperado chegara ao acaso dos que o socorreram, e a memória daquele homem caído seguiu-lhe o rasto, espelhado na sombra dos que estiveram ali com ele.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Conversas em vão


«Na sala pequenos grupos orbitavam cabisbaixos em torno do féretro, o qual embalava nas mãos um pequeno ramo de rosas brancas de uma paz profunda que duas mulheres aí depositaram num gesto maternal. Uma delas segura nas mãos um par de luvas brancas que ora entrega a outra igualmente presente, num gesto missionário que ambas entendem em silêncio.
Pouco adiante, num balde de lata, folhas contorcem-se em labaredas que consomem imagens, manuscritos e desenhos num esforço testamentado para apagar da memória o que não fora lembrado em vida.

Ao som da "Toccata e Fuga de Bach", as vozes fazem coro baixo em perguntas e respostas que as bocas escondem da razão, no teatro burlesco da vida, onde a morte impõe um respeito final.

- Mas sabes o que realmente aconteceu ?
- Sei, mas não estava à espera. Ainda ontem reparei que me tinha tentado ligar, mas eu tinha o telefone desligado.
- Pois a mim também me enviou uma mensagem mas como não tinha saldo no telemóvel, pensava ligar-lhe hoje ou amanhã.
- Para mim foi uma total surpresa, porque embora não o visse há muito tempo, andava há tempos para o visitar, mas sabes como é a vida, nunca temos tempo para nada.
- Porque raio aconteceu aquilo, sempre lhe disse que se precisasse, podia contar comigo fosse para o que fosse, bastaria ligar-me. Mesmo que não atendesse o telefone na hora, podia sempre procurar-me.
- Pois é, a mim ligou-me mas eu na altura estava acompanhada e não podia atender, pensava fazê-lo mais tarde mas entretanto também não tive oportunidade.
- Que merda de vida, logo havia de acontecer isto. De facto há já algum tempo que o via algo triste, mas nem quis perguntar-lhe nada porque podia ser apenas uma fase passageira.
- Pois é, eu também notei isso, e disse-lhe sempre que me podia ligar sempre que quisesse desabafar, fosse a que horas fosse. Eu só de manhã é que vi que ele ligou ontem, mas como tomei o comprimido para dormir nem sequer ouvi o telemóvel.
- É curioso que ele na verdade ele nem tinha família, mas havia quase sempre gente a procurá-lo por isto ou por aquilo, porque ele tinha jeito para desenrascar, quando alguém precisava de qualquer coisa.
- Eu gostava muito dele, estava sempre disponível para ajudar e a alegrar os outros e vou sentir a falta dele, embora já não estivesse com ele há bastante tempo e nem soubesse o que se passava.
- Ele já foi, e nós temos de seguir em frente. A vida é assim.
- Pois é, é a vida.»


Esta é uma história, onde apenas a morte é uma realidade adiada, porquanto no restante, é um passado que estende no futuro através do presente. Uma história bem real, onde conhecidos se acham amigos, enquanto estes são facilmente reconhecidos.
Quantas daquelas frases de circunstância que apenas comprometem o sentimento de amizade, fazem o quotidiano da diferença entre o pensar e o agir, entre estar disponível e aparecer, entre reconhecer e ser amigo de alguém.

Um dia, perguntaram-me, como descreveria um “amigo”.
Respondi que:

“um amigo é aquele que aparece sem ser chamado, quando outros estiveram ausentes e já não se tem mais nada e não se espera ninguém”.
NOTA: Gostava que apenas os meus amigos comentassem este post.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Apenas um espaço vazio


Olho o céu e vejo nele mais uma estrela que brilha.
Deito-me e espero que ela me venha embalar o sono.
Que saudades tenho de minha mãe, que não a deixo de chorar.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Lamento de Orpheu

O dia seguinte ...


Agora sei que sou órfão, de pai, de mãe e de tudo um pouco, vou falar ao mar e à lua para que me lavem a alma, enquanto tombo na areia, só, à espera da próxima maré para que me leve.

Dos meus olhos correm lágrimas, quais pequenas bolas de cristal onde vejo o teu rosto para me lembrar de que o amanhã virá e o arco-íris vestiu-se de luto oferecendo as cores ao ramo de rosas que te acompanhou.

Cansado, entrego-me no mesmo sono que te embalou e choro em silêncio as canções com que me embalaste, enquanto esta dor toma conta de mim.